Tuesday, August 12, 2008

O testemunho de António Dias Lourenço em 2001 aquando do centenário de Bento de Jesus Caraça


Que tipo de personalidade era Bento de Jesus Caraça?
Estamos hoje a comemorar o centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça. É o centenário de uma grande figura nacional - da ciência, da cultura, da política. Um dos percursores mais destacados do movimento de resistência que nasceu como resposta à ditadura fascista. Como intelectual avançado, progressista, comunista, teve uma acção muito importante, num tempo em que a ditadura fascista se instalou no nosso país. Por tudo isso é uma figura que justamente merece a homenagem, não só do mundo culto português, mas também de todos aqueles que estão interessados no avanço da liberdade, da democracia, do progresso social no nosso país. Há entretanto uma dimensão da sua personalidade que me parece particularmente importante destacar. Bento de Jesus Caraça foi um grande pedagogo. Deu uma contribuição extraordinária à pedagogia virada para a cultura popular. Procurou sempre que a sua cultura científica fosse como que um degrau para aqueles que não tinham acesso ao ensino superior, e até ao ensino médio, ou mesmo a qualquer forma de ensino. E assim deu uma contribuição impar para elevação cultural dos operários, dos trabalhadores, no seu esforço de autodidactas. Sendo filho de camponeses, camponeses alentejanos, da zona do latifúndio, da zona do Redondo, onde se situava a parte mais concentrada do latifundismo, sempre teve orgulho de afirmar as suas origens de camponês, as suas origens de classe. Em 31/32, já então como professor universitário, Bento de Jesus Caraça começa a desenvolver uma actividade múltipla, ligada também ao movimento operário de então.
Que actividade desenvolve, nessa altura, em ligação com o movimento operário?
Já como professor, é convidado por Bento Gonçalves para dar aulas em cursos de aperfeiçoamento. Eram cursos organizados pelo movimento sindical, antes da fascização dos sindicatos, numa altura em que a ditadura fascista já tinha triunfado e, ao movimento sindical, se colocavam tarefas de sobrevivência. O fascismo iria depois pôr fim, com a Constituição de 33, aos sindicatos independentes. Em 1 de Janeiro de 34, os velhos sindicatos acabaram. Só podiam continuar como sindicatos nacionais, riscando do seu estatuto a luta de classes. É nesta fase difícil que os sindicatos apostam no desenvolvimento de uma certa acção cultural. Era uma forma de encontrar terrenos de encontro, de debate, de desenvolvimento cultural. Neste início dos anos 30, um dos grandes sindicatos da classe operária portuguesa era o dos arsenalistas da Marinha, em Lisboa, em frente da Câmara. Este sindicato teve um papel muito importante na tomada de consciência do movimento operário. Bento Gonçalves, como torneiro do Arsenal da Marinha, participava activamente no trabalho desenvolvido por este sindicato. É em ligação com este trabalho que Bento Gonçalves entra em contacto com o professor Bento de Jesus Caraça e o convida a dar lições para os cursos de aperfeiçoamento.
Em que consistiam esses cursos de aperfeiçoamento?
A experiência que tenho é no sindicato de Vila Franca. O nosso curso de aperfeiçoamento o que era? Ensinavam-se disciplinas como matemática, francês, gramática, português. Eu até era professor de esperanto... O objectivo era também criar uma base de atracção, sobretudo para os trabalhadores jovens, mulheres e homens. Elevar a consciência política dos trabalhadores dessa época. Por exemplo, quando se dava filosofia, falava-se em Marx, em Lénine, nas grandes figuras do movimento operário, nas teorias revolucionárias da época, na história revolucionária do mundo. Tentava-se criar uma base de cultura, política também, filosófica, com os trabalhadores que participavam nesses cursos de aperfeiçoamento. Estava-se no início dos anos 30 e importa não esquecer que é nessa altura que se inicia a feroz repressão fascista.É para um leccionar num destes cursos de aperfeiçoamento, do sindicato dos arsenalistas da Marinha, que Bento Gonçalves convida Bento de Jesus Caraça. E é então, e através de Bento Gonçalves, que se cria a base de relação política de Bento de Jesus Caraça com o PCP. Eu viria a conhecê-lo mais tarde. Por feliz iniciativa do meu pai, presidente do Sindicato de Vila Franca, e que sempre teve a preocupação de interessar os filhos pela cultura e pela política, vim para Lisboa, frequentar o curso industrial. Comecei então a tomar contacto com a juventude comunista. E é esse contacto que me leva depois a matricular-me na Universidade Popular, então muito conhecida entre os jovens operários da região de Lisboa. Bento de Jesus Caraça era um dos professores da Universidade, com outras destacadas figuras da cultura portuguesa. Mais tarde ascendeu à direcção da Universidade Popular.E as lições como eram? Eram na base de uma intervenção do mestre, para abrir ao debate. Havia lá professores como Agostinho da Silva, Diogo de Macedo, Barbosa de Magalhães. Em 42/43, a Universidade Popular foi encerrada pelo fascismo. Mas entretanto muito trabalho tinha sido feito.Ele foi meu professor de matemática. Sabe-se como os jovens estudantes em geral têm horror à matemática. Então como hoje. Mas o professor Bento de Jesus Caraça sabia ensinar os alunos a terem amor à matemática, a compreenderem a sua importância como instrumento para uma rápida compreensão e intervenção nos problemas da vida. Ensinava a matemática começando pelas coisas mais atraentes para os alunos. Coisas que lhes dissessem algo. Foi um grande pedagogo.
Cursos de aperfeiçoamento. Universidade Popular. No fundo, estamos a falar também de formas de resistência ao fascismo. Algumas das muitas em que Bento Caraça participou. Queres referir outros exemplos?
Há muitos outros exemplos. A participação no jornal "O Diabo". Os passeios no Tejo.Nós, os jovens do movimento progressista, do movimento comunista da época, apostávamos então em criar uma base de intervenção na vida cultural e política. Foram-se criando núcleos e é nessa base que se organizam os passeios no Tejo, de barco, em que participavam, em média, 30 a 40 pessoas, intelectuais, trabalhadores como eu, e outros. Bento de Jesus Caraça estava presente em todas estas iniciativas. Estes passeios de barco, que tiveram início por volta de 1933, foram-se organizando até 41. Reuníamos ali numa zona arborizada perto de Azambuja. E aí fazíamos o piquenique - um pretexto para o convívio e o debate. Participavam também esperantistas. E jovens de outras organizações. Havia, por exemplo, os Naturistas - que resolveram avançar com um movimento naturista que o fascismo não se atrevia a fechar.Chegámos a fazer, em Vila Franca, grandes convívios, com cerca de 300 participantes, em particular jovens intelectuais ou com preocupações culturais. Este período corresponde a uma fase em que, face às manobras de Salazar, o movimento democrático, principalmente com a actividade mais dinâmica dos comunistas, tenta organizar-se no sentido de arrancar as liberdades mínimas. De aproveitar as mínimas possibilidades legais - da legalidade colecte de forças do fascismo. O que não era nada fácil, com a repressão. E com a censura.
Já que estamos a falar dos muitos obstáculos que então era preciso ultrapassar, queres falar um pouco dessa grande barreira que era a censura?
Todas as formas de actuação e resistência anti-fascista tinham que passar várias barreira - a barreira policial e a barreira da censura. Como vencer a intervenção da censura, que era feroz na época? Tínhamos que encontrar as formas de vencer esta barreira. De fazer passar a mensagem. Bento de Jesus Caraça e toda a nossa intelectualidade mais destacada teve que enfrentar essa outra arma poderosa do fascismo, que era a censura. E que era um obstáculo a que pudesse exercer um papel fundamental no debate de ideias, na cultura. Havia jornais que eram impedidos de sair sem alterarem um ou outro parágrafo. O lápis azul da censura era um inimigo terrível, na difusão das ideias, da cultura, da informação. Havia mesmo comissões distritais de censura, comissões para o teatro, comissões para a imprensa, etc. Em termos literários, a acção da censura é impressionante. Foram apreendidos três mil e trezentos e cinco livros nacionais e estrangeiros (trezentos e vinte e dois portugueses). Escritores de uma grande projecção tiveram dezenas de livros proibidos e apreendidos. Oito jornais estrangeiros estavam impedidos de entrar em Portugal. Um dos atingidos, de entre as publicações nacionais, foi o jornal "República", que teve um papel muito importante na informação na época.
E como é que se conseguia, de alguma forma, tornar essa situação?
Com a participação em publicações como "O Diabo", por exemplo. "O Diabo" era um jornal anti-fascista, criado em 34. Teve directores como Quintanilha, Ferreira de Castro. Foi entretanto o seu administrador, o Horácio Cunha, que alargou o âmbito de acção desta publicação. Era um homem que queria abrir portas. E abriu as portas ao jovens. E os jovens entraram. Entre eles Álvaro Cunhal. Bento de Jesus Caraça foi um dos grandes colaboradores de "O Diabo". Convivia com isto tudo. E estes jovens de "O Diabo" - eram o diabo em figura e gente... Nós procurávamos penetrar em todos os terrenos em que era possível intervir, debater os grandes problemas da época. Fui colaborador de "O Diabo", entre grandes nomes da intelectualidade da altura. E costumo dizer que sou "um pigmeu entre gigantes".Não esquecer nunca que esta foi a época do triunfo do nazismo, do triunfo da República em Espanha, do triunfo da Frente Popular em Espanha e França. O começo e o fim da guerra civil espanhola. É um período extremamente agitado da vida mundial. Que se reflectia muito profundamente em Portugal. Como se compreende era uma época de acesas polémicas. Este é o pano de fundo em que Bento de Jesus Caraça virá a assumir uma outra grande realização - a colecção "Cosmos".
Como surgiu a ideia da colecção "Cosmos"?
Nesta época, de grande repressão, os presos políticos iam directamente para Angra do Heroísmo.. De Angra iam depois para o Tarrafal uns, outros ficavam lá, outros regressavam. Mas Angra era, em geral, o porto de chegada dos presos políticos que iam deportados. Ora bem, um dos presos políticos deportados foi o Manuel Rodrigues, que era comunista, e viria a ser o principal detentor do capital inicial da editora "Cosmos". Foi ele mesmo que me contou esta história.Em Angra, Manuel Rodrigues encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: "Ó Bento - eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira... Tens alguma ideia da utilidade possam ir a ter?". E o Bento Gonçalves respondeu: "Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão - cultural e revolucionária. E olha - a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele - dizes que vais da minha parte - e pões-lhe esse problema". Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção. Foi este o ponto de partida para a criação da "Cosmos".Qual era o objectivo da "Cosmos"? Era ser uma editora cultural, com caracter enciclopédico. O que bento de Jesus Caraça concebeu foi uma enciclopédia virada para a cultura popular. A colecção englobava a cultura nas suas diversas expressões, com a edição de livros de autores estrangeiros e portugueses, livros que focassem de uma forma mais directa os diferentes sectores de conhecimento, da actividade cultural, científica. Todos os 129 volumes publicados pela Cosmos - um milhão de exemplares - se integram nesta perspectiva. A "Cosmos" foi uma outra grande criação desta personalidade multifacetada que era Bento de Jesus Caraça.
Que outras facetas da sua personalidade gostarias de realçar?
Penso que há uma parte da personalidade de Bento Caraça que não está a ter o necessário relevo. Claro que merece todo o relevo o papel que ele teve na vida cultural e científica. Mas penso que a forma como se tem vindo a falar da sua actividade democrática, tem sido um pouco limitada. E essa actividade teve uma expressão muito vasta. O nome de Bento de Jesus Caraça está ligado a toda a actividade antifascista e democrática desenvolvida na época. Nomeadamente quando, com o fim da guerra e a derrota do nazismo, Salazar se vê obrigado a manobrar, a designar o fascismo português "democracia orgânica", e o movimento democrático tenta afirmar-se, aparecer à luz do dia, participar na vida política.Bento de Jesus Caraça destaca-se desde logo nesta acção do movimento democrático, que então tentava forçar formas de acção mais abertas para poder avançar. Na análise dos acontecimentos desta época é preciso ter sempre presente que não era possível desenvolver uma actividade política contra o fascismo, sem ter estruturas clandestinas, ilegais. Quer dizer - todos esses movimentos legais que apareceram na época tiveram, na sua criação e dinamização, na sua dinâmica até, a acção dos movimentos que estavam na clandestinidade. Em particular do Partido Comunista Português, da juventude comunista. Em 1943 é criado um organismo clandestino, com uma grande força no movimento democrático em Portugal - o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista - o MUNAF. Este movimento englobou e trouxe ao seu seio os democratas mais combativos, aqueles que se dispunham mais a assumir o risco da acção política na época. Principalmente comunistas. Este movimento era encabeçado pelo Conselho de Unidade Nacional, dirigido pelo general Norton de Matos, e era constituído por núcleos de anti-fascistas destacados, combativos. O Bento de Jesus Caraça pertenceu ao Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista. Um facto que tem sido um pouco apagado.. O Conselho de Unidade Nacional Anti-Fascista vivia secretamente, com rígidas formas de secretismo.E naturalmente cada um só sabia aquilo de que precisava de saber. Por isso mesmo, muitos não sabiam que o Bento de Jesus Caraça, como outros, era membro do PCP, embora não estivesse no Conselho como membro do PCP. Mário Soares, cujo liberalismo relativamente à cronologia e verdade da história é conhecida, veio nestes dias à televisão pôr em causa a qualidade de comunista de Bento de Jesus Caraça. Mas a verdade é que Bento Caraça foi militante do PCP. Ao Conselho, o Bento de Jesus Caraça deu uma contribuição muito grande, que muitos poucos sabem. Foi ele quem elaborou o projecto de programa para o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista. Que naturalmente foi depois submetido à discussão no Conselho, em que houve opiniões diversas e o programa saiu com a recolha de todas essas opiniões. Mas Bento de Jesus Caraça teve a confiança de todos para fazer um documento destes.
E das suas características humanas, queres dizer alguma coisa, contar algum episódio que tenhas vivido com ele?
Aqui vai um episódio, que me parece de todo o interesse. Numa reunião do Conselho Nacional, estavam presentes o Dr. Nuno Simões, que era advogado de Lisboa, e um médico do Porto, o Dr. Veiga Pires. Como democratas, eles eram muito amigos os dois. A certa altura o Nuno Simões, que era assim "meia bola e força", faz considerações desprimorosas para o povo do Porto. E o Veiga Pires interveio muito chocado e diz que ali está a ser insultado "o heróico povo do Porto". Começam a discutir os dois e desafiam-se para a pancada, quando acabasse a reunião. Entretanto a reunião teve um intervalo para o almoço e eu agarrei o professor Azevedo Gomes e o Bento de Jesus Caraça e disse-lhes: "Meus amigos, não devemos deixar que estes dois homens saiam daqui inimigos". Eles foram falar-lhes e conseguiram. Saíram dali amigos. Bento de Jesus Caraça tinha essa grande outra particularidade - a capacidade de congregar pessoas de opiniões diferentes, um grande poder de ganhar para uma ideia comum os que tinham ideias diferentes entre eles. Era um homem com uma grande abertura. Um grande prestígio. E uma forma de falar politicamente elevada. Este caso é significativo também do espírito de Bento de Jesus Caraça.
Bento de Jesus Caraça foi, como é conhecido, alvo da repressão fascista. De perseguições que iriam mesmo acelerar a sua morte. Acompanhaste este processo?
Sim. A certa altura desencadeia-se a repressão fascista contra os intelectuais, contra o professorado, até pelo seu apoio às lutas estudantis. E naturalmente pela sua participação no movimento antifascista. Esta onda repressiva corresponde também a uma fase em que - com base no trabalho dos movimentos antifascistas ilegais - se tinha conseguido organizar um movimento legal - o MUD. É em 1945 que é constituído o MUD e o MUD juvenil. E começam a ser criadas outras organizações - o movimento para a paz, o movimento das mulheres. Bento de Jesus Caraça, foi um dos dirigentes do MUD, um dos seus percursores.E, nesta qualidade, começa então a ter que dar a cara, pelo que cai sob a alçada da polícia. A primeira grande ofensiva é a de 46, em que um grande núcleo de professores, dos mais destacados do ensino universitário, são presos e, grande parte deles, expulsos do ensino. Como foi o caso de Bento de Jesus Caraça. Já então ele estava gravemente doente. E a prisão foi um dos factores que mais contribuiu para a sua morte.Tive contacto com ele praticamente até ao último minuto da sua vida. Fui a sua casa, em Campo de Ourique, no próprio dia da sua morte. Entro e vejo a casa cheia de gente consternada. Ele estava na agonia. Como eu estava então na clandestinidade, tive que me vir embora.
Em síntese, que te parece mais importante dizer do que foi a vida e a personalidade de Bento de Jesus Caraça?
Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável. Um homem de um grande saber e de uma grande modéstia. E, por outro lado, com um grande sentido humanístico. Ele era de uma humanismo que ressaltava na sua personalidade. E uma pessoa de diálogo.Ele foi um dos combatentes mais activos pela paz, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo, pela abolição da exploração do homem pelo homem. Um combatente denodado, decidido. Penso que, quando hoje, no centenário deste homem, se está a exaltar, e deve ser exaltado, a sua personalidade de cientista, de pedagogo, se deve também necessariamente dar relevo à sua personalidade política, ao que ele foi, em termos políticos, nas épocas duras do fascismo, na luta contra a ditadura fascista. Isso também é importante dizer.

Tuesday, October 20, 2009

Bento de Jesus Caraça, militante da cultura integral do indivíduo

Jorge Rezende
Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Grupo de Física Matemática da Universidade de Lisboa

Bento de Jesus Caraça nasceu em 1901, em Vila Viçosa, filho de trabalhadores rurais. Viveu os primeiros anos da sua vida na Herdade da Casa Branca, na freguesia de Montoito, onde aprendeu a ler e a escrever com um trabalhador. Tendo notado a sua grande inteligência, a esposa do patrão do pai decidiu encarregar-se dele e custear os seus estudos.
Foi sempre um aluno muito brilhante tendo frequentado liceus em Santarém e Lisboa (Pedro Nunes), e entrado para o Instituto Superior do Comércio, mais tarde designado Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) – o actual Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) – onde terminou o curso em 1923.
Ainda estudante foi 2º Assistente de Aureliano de Mira Fernandes. Passou a 1º Assistente em 1924 e foi nomeado Professor Catedrático em Dezembro de 1929, a pouco tempo de completar apenas 29 anos.
Nos anos 30 era já uma pessoa com um enorme prestígio, sobretudo entre a juventude. Isso deve-se principalmemte ao facto de ter sido um dos fundadores da Universidade Popular Portuguesa (com apenas 18 anos!) tendo chegado à presidência em 1928, iniciando a sua reactivação e reorganização. Foi aí e noutras associações que deu as suas célebres conferências que começaram a fazer dele uma figura lendária entre as classes populares. De entre aquelas que ficaram célebres destaco «A Vida e Obra de Evaristo Galois», 1932, «Galileo Galilei» - valor científico e valor moral da sua obra», 1933, «Escola Única», 1935, e, particularmente, «A Cultura Integral do Indivíduo - problema central do nosso tempo», 1933. Ver [1].
Também contribuiram para o seu prestígio os inúmeros artigos que escreveu para algumas revistas, como, por exemplo, «A Luta Contra a Guerra», 1932, «Abel e Galois», 1940, «Galileo e Newton», 1942. Respondendo a críticas de António Sérgio, trocou com este várias cartas, na revista Vértice, em 1946, que ficaram célebres como uma das mais importantes disputas ideológicas do nosso século XX. Ver [1].
Em 1936 é fundado o «Núcleo de Matemática, Física e Química», em Lisboa, cujos principais impulsionadores são António da Silveira, Manuel Valadares e António Aniceto Monteiro. Com o o «Núcleo» dá-se início a um movimento muito mais amplo de renovação científica em moldes modernos e com padrões internacionais que, na matemática, veio a ser conhecido como «Movimento Matemático» e que só foi aniquilado em 1946-1947 com as expulsões de muitos professores universitários.
O «Núcleo» contava também com a colaboração muito activa de Bento de Jesus Caraça, que foi um dos seus fundadores – o único que não tinha feito estudos de doutoramento no estrangeiro – tendo sido ele a dar início às suas actividades em 16 de Novembro com a primeira lição de um curso sobre «Cálculo Vectorial». Acompanha este artigo o cartaz que anuncia este curso.
Criado com ambições mais vastas, nomeadamente no que diz respeito à investigação científica, o «Núcleo» limitou-se essencialmente a ministrar cursos de elevado nível, o primeiro dos quais foi o de Bento Caraça. A ideia era a de serem publicados em livro, o que só acabou por ser feito com os ministrados por Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes e Amorim Ferreira, em edições de muito boa qualidade. Embora o fascismo lhe tivesse movido perseguições diversas, entre as quais dificultando a utilização das Universidades, o «Núcleo» acabou por se dissolver, por divergências internas, em 6 de Novembro de 1939.
Mas o «Movimento Matemático» – cujas principais figuras foram António Aniceto Monteiro, Bento Caraça e Ruy Luís Gomes – tinha já dado início a mais iniciativas que, essas, continuaram. Destacarei apenas aquelas em que Bento Caraça participou.
Com Aureliano de Mira Fernandes e Caetano Maria Beirão da Veiga fundou, em 1938, o «Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia», no ISCEF, onde os três eram professores. Foi seu director até à sua extinção, por decisão ministerial, em Outubro de 1946.
Fundou, em 1939, com António Monteiro, Hugo Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar, a «Gazeta de Matemática», cujo primeiro número saiu em Janeiro de 1940.
Participou na fundação da «Sociedade Portuguesa de Matemática» (SPM), em 12 de Dezembro de 1940, tendo sido presidente da sua Direcção no biénio de 1943-1944.
Testemunho de toda a efervescência científica da época é a fotografia de conjunto que ilustra este artigo e que foi tirada durante a visita do grande matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa, na «Escola Politécnica», em 1942, onde fez várias conferências. Podem-se ver, da esquerda para a direita, além do convidado, figuras cimeiras do «Movimento Matemático»: Hugo Ribeiro, Armando Gibert, António Aniceto Monteiro, Manuel Zaluar, Bento de Jesus Caraça, Maurice Fréchet, José Sebastião e Silva, Ruy Luís Gomes, José Ribeiro de Albuquerque, Augusto Sá da Costa.
Em 1941, fundou a «Biblioteca Cosmos», de que foi o único director até Junho de 1948, e que foi a grande resposta cultural adequada ao ambiente de repressão existente. A «Biblioteca Cosmos» editou «145 números correspondendo a 114 títulos agrupados em sete secções»[2], «com uma tiragem global de 793 500 exemplares»[3], e constituiu a mais importante iniciativa de divulgação da ciência e da cultura realizada em Portugal no século XX. António Dias Lourenço conta assim como nasceu a «Cosmos»[4]:
«Em Angra [do Heroísmo, na prisão], Manuel Rodrigues [de Oliveira] encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: “Ó Bento – eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira... Tens alguma ideia da utilidade possam ir a ter?”. E o Bento Gonçalves respondeu: “Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão – cultural e revolucionária. E olha – a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele – dizes que vais da minha parte – e pões-lhe esse problema”. Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção. Foi este o ponto de partida para a criação da “Cosmos”».
Foi na «Biblioteca Cosmos» que publicou os dois primeiros volumes do seu livro «Conceitos Fundamentais da Matemática», e que só em 1951 seria publicado na íntegra. É aqui que Bento de Jesus Caraça mostra as suas extraordinárias qualidades de divulgador da Matemática. Este seu livro constitui uma obra que continua a ser referência para quem se quiser iniciar nos aspectos técnicos, históricos e filosóficos desta Ciência. Mantém-se, sem dúvida, até os nossos dias, como o melhor livro de divulgação de Matemática escrito por um português.
Bento de Jesus Caraça participou também activamente na resistência política semi-clandestina e clandestina. Destaco a sua participação no MUNAF e no MUD.
Em Dezembro de 1943 constituiu-se, na clandestinidade, o «Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista», órgão de direcção do «Movimento Nacional de Unidade Anti-Fascista» (MUNAF). Álvaro Cunhal recorda esse facto assim: «O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio»[5].
Em 1945, com a fim da guerra, na sequência das manifestações de rua comemorando a vitória sobre o nazi-fascismo, foi fundado o «Movimento de Unidade Democrática» (MUD) a cuja Comissão Central pertencia Bento de Jesus Caraça. Em 1946 o MUD publica o documento «O MUD perante a admissão de Portugal na ONU», assinado pela respectiva Comissão Central, o que conduziu à expulsão da Universidade Técnica de Bento de Jesus Caraça e Mário de Azevedo Gomes por despacho do Ministro da Educação Nacional.
Bento Caraça viria a morrer dois anos depois. Ruy Luís Gomes escreveu o seguinte na Gazeta de Matemática que assinala o seu falecimento:
«Na verdade, Bento Caraça pertenceu ainda a uma geração que fez a sua própria preparação, no domínio da Matemática, numa época em que as nossas Escolas Superiores estavam inteiramente enformadas pelo velho e desastroso conceito de que se pode ser um grande professor universitário sem nunca se ter patenteado, na análise exaustiva de algum problema concreto, a garra ou, pelo menos, o sentido de investigador. (...)
Bento Caraça não foi, pois, um investigador, mas superando o meio em que foi educado e lançando-se desde muito novo nas tarefas do ensino, em breve se juntou aos que deram o primeiro passo para fazer triunfar nas nossas Escolas Superiores uma nova concepção da vida universitária».[6]
Não foi só o acaso que levou a que tenha sido Bento de Jesus Caraça a fazer as palestras que marcam historicamente o início do «Movimento Matemático» e que a sua expulsão em 1946 e a sua morte em 1948 tenham coincidido com o aniquilamento, pelo fascismo, daquele movimento de renovação científica. De facto, Bento de Jesus Caraça simboliza uma época de resistência e de luta pela modernização, pela divulgação e pela popularização da Ciência em Portugal. Simboliza ainda toda uma geração de cientistas, de intelectuais, de trabalhadores, de jovens que lutaram pelo acesso do povo ao Ensino, à Cultura, à Ciência, à Paz e à Liberdade.

Referências
[1] Bento de Jesus Caraça, Conferências e outros escritos. Lisboa, 1978.
[2] António de Sequeira Zilhão, O Prof. Bento de Jesus Caraça, LER editora, Lisboa, 1981.
[3] Manuel Rodrigues de Oliveira, Biblioteca Cosmos -114 títulos com uma tiragem média de 6960 exemplares. Em «Seara Nova» 1472 de Junho de 1968, Bento de Jesus Caraça no 20° aniversário da sua morte – presença e actualidade.
[4] António Dias Lourenço, Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável.
http://www.pcp.pt/actpol/temas/100-bento-jesus-caraca/testemunho-dias-lourenco.html
http://ruyluisgomes.blogspot.com/2008/08/o-testemunho-de-antnio-dias-loureno.html
[5] Álvaro Cunhal, Bento Caraça – insigne intelectual comunista.
http://www.pcp.pt/actpol/temas/100-bento-jesus-caraca/insigne-intelectual-comunista.html
http://ruyluisgomes.blogspot.com/2008/11/bento-caraa-insigne-intelectual.html
[6] Ruy Luís Gomes, Bento Caraça, grande educador. Em «Gazeta de Matemática» 37-38, Agosto-Dezembro de 1948.
http://ruyluisgomes.blogspot.com/2006/01/transcrio-de-bento-caraa-grande.html

Friday, November 14, 2008

O exemplo de Bento de Jesus Caraça 23 anos depois do 25 de Abril

O exemplo de Bento de Jesus Caraça 23 anos depois do 25 de Abril
Álvaro Cunhal
na Universidade Popular de Setúbal
Setúbal, 18 de Abril de 1997
O tema proposto para este colóquio é «o exemplo de Bento de Jesus Caraça e a sua actualidade». É um tema aliciante:
- para melhor conhecimento desse insigne português e da época em que viveu;
- pelo estímulo que representa para aqueles que querem um melhor futuro para o nosso povo e a nossa pátria.
Abordarei pois alguns aspectos fundamentais do exemplo de Bento de Jesus Caraça.
Antes de mais é de sublinhar que Bento de Jesus Caraça deu um exemplo de coerência do pensamento e da acção.
Não se limitou a pensar que a cultura é um dos principais valores da sociedade e que o povo tem direito à cultura. Pensando assim, tornou-se um activo difusor dos conhecimentos e ideias, um activista da democratização da cultura.
Não se limitou a pensar que a ditadura fascista era um regime opressor que reprimia com violência as liberdades e direitos fundamentais dos cidadãos. Pensando assim tornou-se um activo militante da luta antifascista.
Não se limitou a pensar que a guerra é um crime contra a humanidade. Pensando assim tornou-se um activo militante da luta pela paz.
Não se limitou a pensar que o sistema capitalista é um sistema de exploração que necessita de ser ultrapassado com a construção de uma sociedade nova. Pensando assim, tornou-se um militante do Partido Comunista.
Na actual situação nacional e mundial, quando proliferam a mentira, a falsidade, o oportunismo, este exemplo de coerência tem inteira actualidade como um valor na conduta dos seres humanos, de que a sociedade prementemente necessita.
Bento de Jesus Caraça deu o exemplo de um homem da cultura, no mais profundo significado desta palavra e a sua intervenção social constituiu uma contribuição efectiva para a democratização cultural.
Combatia o monopólio da cultura pelas classes dominantes e por elites, e considerava que o acesso do povo à fruição e à criação culturais é um elemento imprenscindível de uma sociedade e de regime verdadeiramente democráticos.
Professor universitário revelou particular talento na difusão de conhecimentos científicos e estimulou a formação de valiosos quadros de cientistas.
Foi organizador e dinamizador das Universidades Populares, como é o caso que a Universidade Popular de Setúbal fez lembrar ao re­ferir que foi Bento de Jesus Caraça que a fundou em 1931 e ao editar em 1996 a intervenção de Bento de Jesus Caraça intitulada «As Universidades Populares e a Cultura» feita em Setúbal nesse mesmo ano de 1931.
Em Lisboa, na Universidade Popular orientou e promoveu importante trabalho cultural, no qual se tornaram célebres as suas conferências bem como de outros destacados antifascistas.
Orientou e impulsionou ainda uma notável série editorial (Colecção Cosmos).
Na situação presente, em que a cultura é submetida e submergida por orientações e realizações determinadas por interesses das forças do poder do capital, o exemplo de Bento de Jesus Caraça tem inteira actualidade e é justamente de lembrar pela notável plêiade de inte­lectuais portugueses que na complexa situação actual dão exemplos dignos do exemplo de Bento de Jesus Caraça.
Porque este colóquio tem lugar na Universidade Popular de Setúbal, que ele próprio fundou em 1931, comecei por referir, o exemplo de Bento de Jesus de Caraça na área cultural.
É porém de sublinhar que o seu exemplo na área cultural não só é inseparável, como decorria directamente das suas opções ideo­lógicas e políticas.
Assim, Bento de Jesus Caraça deu o exemplo de um firme e dedicado militante antifascista.
O seu nome está ligado à resistência antifascista.
Particularmente significativa foi a sua participação dirigente na criação e desenvolvimento clandestino nos anos 1943/45 do Movi­mento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e de 1945 (fim da 2.a Guerra Mundial, com a derrota do fascismo e a manobra pseudo-democrática de Salazar) até à sua morte em 1948, no Movi­mento de Unidade Democrática (MUD) que, ultrapassando a bar­reira da legalidade fascista, se impôs durante alguns anos à luz do dia como expressão legal e semi-legal organizada da resistência antifascista.
Num momento em que no mundo renascem partidos e influên­cias fascistas e neo-fascistas, num momento em que em Portugal reapa­recem responsáveis da ditadura salazarista e marcelista pretendendo fazer esquecer os crimes da ditadura e outros organizam e difundem projectos de extrema-direita sob a capa demagógica do populismo, num momento em que o governo PS e PSD preparam uma revisão da Constituição e novas leis eleitorais que, a serem realizadas, repre­sentariam a completa subversão do regime democrático, — o exem­plo de Bento de Jesus Caraça como intelectual activo e dedicado militante democrático antifascista tem inteira actualidade.
Na vida política, social e cultural, Bento de Jesus Caraça foi mais longe. Deu exemplo de um intelectual companheiro de luta da classe operária, da luta em defesa dos seus interesses de classe, dos seus ideais de transformação revolucionária da sociedade.
Considerava convictamente que, além da libertação da ditadura e da conquista da liberdade, os grandes problemas da humanidade não podem ser resolvidos e a exploração, a opressão, as grandes desigualdades e injustiças sociais não podem ser superadas no quadro do sistema capitalista. Bento de Jesus Caraça foi comunista, membro do Partido Comunista Português.
Como militante comunista fez parte do Conselho Nacional de Unidade Antifascista (órgão supremo do MUNAF) e da Comissão Central do MUD.
Pela sua influência foi um dos obreiros desses grandes movimentos unitários. Sabia aliar o respeito pelas opiniões divergentes e pela busca de acordos unitários com a firmeza da opção política comunista que fizera.
Quando assistimos em Portugal a toda uma campanha de forças e elementos reaccionários, que copiando o que já Salazar dizia, se proclamam eles, reaccionários, «os verdadeiros democratas» e acusam os comunistas de totalitários inimigos da demo­cracia, quando se desenvolve uma gigantesca campanha de pressão ideológica, discriminações sociais, falsificações históricas, contra o PCP; - o exemplo de Bento de Jesus Caraça, intelectual comunista obreiro da unidade democrática, intimamente ligado à luta e ideias dos trabalhadores e do seu partido, tem particular actualidade.
E para terminar,
Bento de Jesus Caraça deu um exemplo de sinceridade, de simplicidade e modéstia na sua intervenção social. Nos diversos aspectos da sua actividade (política, social, cultural) os valores éticos aparecem sempre em relevo.
Foi um protagonista que não protagonizava. Um ser humano que convivia com outros seres humanos num plano de respeito e compreensão. Um homem de muito saber que convivia com os jovens como se jovem fosse.
Quando hoje impera a política-espectáculo, a impunidade da mentira e da falsidade, o carreirismo, a corrida à ribalta daqueles que crêem que a exibição e a máscara é que dão prestígio e fama, o exemplo de simplicidade e modéstia de Bento de Jesus Caraça tem a actualidade de uma chamada de atenção, vinda da memória do tempo, de um cidadão que respeita os outros cidadãos, de um verdadeiro amigo, de um camarada.
A Universidade Popular de Setúbal merece bem os apoios necessários para que o seu futuro não mais atravesse as dificuldades e obstáculos que defrontou no passado.
A actividade da Universidade Popular de Setúbal é um estímulo para que outras e novas Universidades Populares sejam criadas e se desenvolvam com os grandes objectivos culturais, democráticos e humanistas que há já mais de 60 anos Bento de Jesus Caraça traçou.

Bento Caraça - insigne intelectual comunista

Fotografia digitalizada por Jorge Rezende
Esta fotografia mostra Álvaro Cunhal num passeio no Tejo na época em que se relacionou mais estreitamente com Bento de Jesus Caraça
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Bento Caraça - insigne intelectual comunista
(Extractos da Entrevista de Álvaro Cunhal ao Avante!)
Conheci-o nos anos 30. Primeiro na Universidade Popular Portuguesa onde assisti a várias das suas conferências e tive ocasião de falar com ele no quadro de um relacionamento com outros conferencistas. Depois ainda nessa época, em encontros fortuitos. Eu era jovem, mas já então era militante do PCP, da direcção da Juventude Comunista e com intensa actividade no movimento associativo dos estudantes. Apenas para melhor se compreender o meu relacionamento com Bento de Jesus Caraça, lembro que em 1935 passei à clandestinidade e fui a Moscovo, e em 1937 fui preso e estive cerca de um ano na prisão. A relação com B. Caraça teve logo à partida presentes dois pressupostos. Eu via nele um intelectual conhecido e de grande valor considerado como comunista embora então não soubesse se era ou não membro do Partido. E ele via em mim um jovem conhecido como militante comunista já então com certa responsabilidade.
*
(A Universidade Popular), com a influência qualificada de B. Caraça, tratou-se de uma actividade cultural de grande projecção. O grupo de conferencistas incluía pessoas de valor como Dias Amado, Mário de Castro. Também de meu pai, Avelino Cunhal. Eram pessoas com diferenciadas personalidades individuais mas identificadas no fundamental das suas opções socio-políticas. B. Caraça, cientista, professor, pedagogo, homem de cultura, pronunciava-se contra a cultura como monopólio de uma elite. Explicitava que um sábio pode não ser um homem culto e um homem culto pode não ser sábio. A cultura deveria ser um valor e um bem do povo. Daí a defesa da democratização da cultura como elemento de liberdade do ser humano e da democracia política.
*
A cultura exige conhecimento e o povo deve ter acesso à aquisição do conhecimento. É de lembrar a ideia sublinhada por B. Caraça de que, para tal, o problema económico é aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. A actividade cultural de B. Caraça, como professor, como conferencista, como ensaísta, como orientador de actividades editoriais, é inseparável das suas concepções acerca da sociedade existente, da cultura, da democracia, dos valores político-éticos, do ideal de uma transformação profunda da sociedade de assumido conteúdo humanista.
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Ele foi o grande orientador, animador e dinamizador de uma valiosa série de obras editadas pela Cosmos. Tive ocasião de falar numerosas vezes com ele a este respeito. Posso mesmo dar um testemunho directo. Propôs-me que escrevesse um volume sobre "A descoberta da Terra", ou seja o avanço histórico do conhecimento pelo ser humano do nosso planeta. Ainda há dias, arrumando papéis, encontrei muitas centenas, para não dizer milhares, de folhas com notas de leitura, apontamentos, capítulos já redigidos, ilustrações para esse trabalho. Não teve seguimento porque em 1941, pouco depois de libertado após uma segunda prisão, passei de novo à clandestinidade.
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Ele dava valor ao valor dos jovens. Tinha a sua própria experiência: professor universitário aos 25 anos, professor catedrático antes dos 30. Criava nos alunos o gosto pelo estudo, pela ciência e pela cultura, estabelecendo ao mesmo tempo com muitos deles um relacionamento amistoso, de convívio e de liberdades. Ele era e gostava de afirmar-se um homem simples. Andava a pé na cidade em cabelo quando na sua época praticamente toda a gente usava chapéu. Vestia a sua samarra alentejana. Falava com os mais novos e os mais novos falavam com ele como se tivessem todos a mesma idade. Sentia-se bem com os jovens e os jovens sentiam-se bem convivendo com ele. No estudo, em iniciativas culturais, em conversas sobre os mais variados temas, em passeios, em fins de semana passados na praia. De sublinhar que nesses colectivos estavam sempre presentes, surgindo com uma espontaneidade correspondente ao pensamento e ao sentir da cada qual, os problemas da época.
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O sentido ético e humanista do seu pensamento traduzia-se, entre muitas outras coisas, pela valorização da coragem na afirmação da verdade científica (Galileu Galilei) ou das grandes figuras da Índia como Tagore e Gandi. Tinha particular preferência literária por Romain Rolland e aconselhava a muitos jovens a leitura de "Jean-Christophe". Não menosprezava porém a influência política directa. Numa época em que a censura à imprensa e a proibição da importação de publicações comunistas, ele conseguia receber e facilitava a leitura aos jovens de Le Monde, semanário dos conhecidos intelectuais comunistas franceses Henri Barbusse e Romain Rolland, intelectuais aos quais estava também muito directamente ligado como responsável e animador em Portugal do Movimento pela Paz Amsterdam-Pleyel dirigido por esses dois intelectuais franceses.
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O relacionamento que acabo de referir com B. Caraça tinha como adquirido que B. Caraça era comunista. Mas nas condições de clandestinidade a organização e os contactos no Partido eram compartimentados e nenhum membro do Partido se afirmava como tal, a não ser na sua ligação orgânica. De mim para mim, tinha por certo que B. Caraça era membro do Partido, mas não o poderia afirmar. O relacionamento partidário directo deu-se em 1943. Em 1941-42, época da reorganização do PCP, eu tinha de novo passado à clandestinidade e sido enviado como funcionário do Partido para o Norte do País. Em Outubro de 1942, tendo sido presos vários dirigentes do Partido, fui chamado de novo para Lisboa, a fim de integrar o Secretariado desfalcado com a prisão de Júlio Fogaça. Ora era precisamente Júlio Fogaça que assegurava na época a ligação partidária com B. Caraça. Fui eu encarregado de restabelece-la, o que sucedeu em 1943.
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No mundo então envolvido na 2.ª Guerra Mundial, 1943 foi um ano marcado em Portugal pelo impetuoso ascenso do movimento operário, a afirmação do PCP como um grande partido nacional e o empreendimento pelo Partido da unidade antifascista na luta pela liberdade e a democracia. B. Caraça deu nessa conjuntura uma contribuição em alguns aspectos determinante para alcançarmos com êxito tal objectivo.
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Lembro que o III Congresso do PCP (primeiro realizado na clandestinidade), noticiado no Avante! de Novembro de 1943, anunciava a criação do Movimento de Unidade Nacional Antifascista, e o Avante! de Janeiro de 1944 noticiava a formação do Conselho Nacional, orgão supremo do MUNAF.O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio.
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O MUD (Movimento de Unidade Democrática) foi formado e desenvolveu-se como uma realização e expressão do MUNAF, aparecendo à luz do dia como um novo movimento e invocando o direito à legalidade. (...) De lembrar a Comissão Central do MUD (1946), que é de interesse citar, que contou na sua composição com Azevedo Gomes, Bento Caraça, Hélder Ribeiro, Maria Isabel Aboim Inglês, Fernando Mayer Garção, Manuel Mendes, Lobo Vilela, Alberto Dias, Manuel Tito de Morais, Demétrio Duarte, Luciano Serrão de Moura e Mário Soares. O MUD, assim como o MUD Juvenil, formado no seu desenvolvimento, foi perseguido e reprimido. B. Caraça foi demitido de professor, na vaga de demissões que atingiu também outros destacados antifascistas, alguns dos quais comunistas.
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Essa atitude (de apagar a ligação de Bento Caraça ao PCP) insere-se na gigantesca operação de falsificação da história a que assistimos actualmente. Escrevem-se volumes, artigos e conferências e pronunciam-se discursos e declarações tentanto branquear a ditadura, a sua natureza fascista, a sua natureza de classe, e todos os seus crimes. Falseia-se a história da heróica resistência antifascista, da luta pela liberdade e a democracia. Insulta-se a revolução de Abril, que a reacção acusa de ter sido causadora da situação desastrosa actual a que nos conduziu a política e governos de direita. Falseia-se a história do levantamento militar, do levantamento popular, das realizações e conquistas da revolução democrática. Falseia-se a história das actividades e do processo contra-revolucionário que conduziu à situação de desastre nacional em que actualmente o país se encontra. E em toda esta operação de falsificação da história, é linha de força o apagamento, o silêncio ou a grosseira deturpação e a calúnia contra o PCP. Aos falsificadores da história não convém que o povo português saiba que eram comunistas homens a quem tanto devem o povo, o país, a cultura, a conquista da liberdade e da democracia.
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Copiado de:
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Sunday, January 08, 2006

Transcrição de "Bento Caraça - Grande Educador"


Bento Caraça
Grande Educador
por Ruy Luís Gomes

A Gazeta de Matemática, ao completar-se um ano de actividade, sente como seu primeiro dever, e bem doloroso ele é, o de recordar perante os seus leitores, na maioria jovens estudantes das nossas Universidades, a forte personalidade de Bento de Jesus Caraça, querido companheiro de trabalho e um dos fundadores desta revista (1).
E se é certo que, como professor do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras e através da larga difusão dos seus livros – de ensino e de divulgação científica – Bento Caraça deu uma contribuição importante para a formação profissional da nossa juventude, no entanto, em meu parecer, foi pela ampla projecção educativa da sua vida exemplar que ele verdadeiramente se afirmou como um autêntico Mestre!
Na verdade, Bento Caraça pertenceu ainda a uma geração que fez a sua própria preparação, no domínio da Matemática, numa época em que as nossas Escolas Superiores estavam inteiramente enformadas pelo velho e desastroso conceito de que se pode ser um grande professor universitário sem nunca se ter patenteado, na análise exaustiva de algum problema concreto, a garra ou, pelo menos, o sentido de investigador.
De aluno laureado subia-se, pela mão de professores mais antigos até às culminâncias da cátedra e, uma vez lá, usufruía-se de um direito de propriedade, absoluto, em arrogante desafio às restrições que o progresso da humanidade lhe tem imposto inexoravelmente no âmbito das coisas materiais. E quantos catedráticos assim viveram e morreram, sem se aperceberem de que estavam traíndo a sua função de profissionais e educadores!
Bento Caraça, fez o seu curso sem nunca lhe ter sido apontado, estou certo disso, como único meio capaz de se chegar a ensinar, matemática ou qualquer outra ciência, o de primeiro aprender – num verdadeiro e estimulante ambiente de trabalho de investigação.
E quantas vezes o ouvi lamentar-se disso mesmo, ao analisarmos as grandes deficiências da nossa própria preparação e, o que é mais importante, as causas profundas do baixo nível científico e ético das universidades portuguesas.
Bento Caraça não foi, pois, um investigador, mas superando o meio em que foi educado e lançando-se desde muito novo nas tarefas do ensino, em breve se juntou aos que deram o primeiro passo para fazer triunfar nas nossas Escolas Superiores uma nova concepção da vida universitária.
Fundou com António Monteiro, Hugo Ribeiro, José Paulo e Manuel Zaluar a Gazeta de Matemática, ajudou a constituir a Sociedade Portuguesa de Matemática e, assim, facilitando o caminho aos mais novos, participou efectivamente na obra de renovação da cultura matemática iniciada em Portugal há cerca de 10 anos.
Vencendo as suas próprias dificuldades e tirando delas um ensinamento para facilitar a formação profissional da juventude, contribuiu em larga medida para que a investigação se tornasse uma primeira realidade, e, procedendo assim, deu um conteúdo real e progressivo à sua missão de educador.
Na verdade, que é um educador? É precisamente “aquele que propõe à juventude uma certa hierarquia de valores” (Julien Benda).
E a sua orientação é boa ou má, quero dizer, útil ou nociva ao interesse nacional e à causa mais ampla do progresso da humanidade, conforme a escala de valores que escolhe e aplica através da sua própria actuação de educador.
Neste sentido, Bento Caraça foi um grande educador!
Alinhando com aqueles que pretendem transformar as nossas Universidades em Centros de Investigação e verdadeiras escolas de trabalho, escolheu como primeiro valor, no domínio da sua actividade de professor, a subordinação dos seus interesses imediatos a um interesse superior – o da preparação profissional da juventude.
E sacrificando tudo, desde a cátedra, de que foi afastado, até às exigências de uma saúde precária, aos grandes valores morais – inteireza de carácter, sentimento de solidariedade e coerência de princípios – deu-nos a todos a melhor lição da sua vida.
O seu exemplo pertence ao património moral da nossa Pátria. O povo português nunca o esquecerá!

(1) Juntamente com António Monteiro, prof. da Universidade do Rio de Janeiro, Hugo Ribeiro, prof. da Universidade de Berkeley (Califórnia), José Paulo, prof. do Liceu de Lamego, Manuel Zaluar, bolseiro em Paris. Estas situações referem-se à actualidade.
Gazeta de Matemática, números 37-38, Agosto-Dezembro de 1948, pág. 4.

Monday, January 09, 2006

Excerto da introdução ao livro "Conferências e Outros Escritos" de Bento de Jesus Caraça


Introdução ao livro Conferências e Outros Escritos de Bento de Jesus Caraça:

À MEMÓRIA DE BENTO DE JESUS CARAÇA
(...)
As homenagens à memória de Bento de Jesus Caraça, após o 25 de Abril, podem e devem assumir formas de ampla participação popular, formas bem diferentes daquelas que os seus amigos e companheiros da luta antifascista organizavam, quase clandestinamente, durante o fascismo.
Relendo os diversos trabalhos que compõem esta nova edição, surge-nos como traço fundamental a sua personalidade de cidadão e de professor, preocupado sempre com a unidade.
E que unidade? Bento Caraça esteve sempre preocupado em conseguir a unidade dos portugueses em torno de um projecto de nova sociedade em que o nosso Povo conquistasse finalmente “as condições para o exercício democrático do poder”.
Se fosse ainda vivo, Bento Caraça estaria hoje ao lado de todos aqueles que defendem a Constituição da República, onde tal fórmula, que lhe era tão cara, está consagrada.
Foi sempre com uma extraordinária e aliciante capacidade de convivência e com uma extraordinária firmeza de carácter que se revelou, quer na Universidade, quer nas lutas cívicas; quer em memoráveis comícios de luta pelas liberdades democráticas, quer em simples palestras com os seus alunos ou os seus colegas.
Evocar Bento de Jesus Caraça, líder natural nas campanhas pela libertação nacional, Mestre incomparável, amigo de todas as horas, é lembrar todo um passado a que temos tanto amor e antever um futuro que esteve sempre presente no seu espírito e foi a grande chama que iluminou toda a sua vida.

Porto, Maio de 1978
RUY LUÍS GOMES

Saturday, May 05, 2007

ÍNDICE


Toda a correspondência (comentários, sugestões, etc.) pode ser dirigida para rezende@cii.fc.ul.pt
*
HISTÓRIA DAS MATEMÁTICAS EM PORTUGAL, por Francisc...
Bento de Jesus Caraça ­- The Man and his Time (Ulp...
Os professores portugueses no Recife - excerto de ...
Bento de Jesus Caraça - Um Homem Para Todos os Tem...
Fernando Lopes Graça faria hoje 100 anos!
101 anos
Faleceu Alfredo Pereira Gomes
Alfredo Pereira Gomes
Centenário de Rómulo de Carvalho (4): António é o ...
Centenário de Rómulo de Carvalho (3)
Centenário de Rómulo de Carvalho (2)
Centenário de Rómulo de Carvalho (1)
"Recordar Angola - 2º Volume", de Paulo Salvador, ...
António Aniceto Monteiro faleceu há 26 anos
'António é o meu nome', Rómulo de Carvalho
BOLETIM DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE MATEMÁTICA, número especial dedicado a Ruy Luís Gomes
No Aeroporto Internacional dos Guararapes (Recife) em 1 de Novembro de 1962
GAZETA DE MATEMÁTICA, nº 151, de Julho de 2006
Uma fotografia de grupo no Brasil
Centenário do nascimento de Corino de Andrade, grande amigo de Ruy Luís Gomes
Alfredo Pereira Gomes e Fernando Soares David, 1º Prémio Francisco Gomes Teixeira
António Aniceto Ribeiro Monteiro nasceu há 99 anos
João Pessoa, Capital de Paraíba
Com outras pessoas
Penedo, 6 de Julho de 1963
Recife, Maio de 1962
Humberto Delgado nasceu há 100 anos
Palmeira dos Índios, 3 de Julho de 1963
10 de Maio de 2006: Centenário do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes
Paulo Morgado, Margarida Luís Gomes e Ruy Luís Gomes
Ruy Luís Gomes, Margarida Luís Gomes e Helena Novais
Frontaria da Capela de São Miguel, Paço das Escolas, Universidade de Coimbra
Na Festa da Amizade, 1979 - José Morgado e Ruy Luís Gomes
Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa
4 de Maio de 1974 - regresso do Brasil
(5) José Morgado, Ruy Luís Gomes e Paulo Morgado
(4) José Morgado e Ruy Luís Gomes
Primeiro de Maio!
(3) José Morgado e Ruy Luís Gomes
(2) José Morgado e Ruy Luís Gomes
(1) José Morgado e Ruy Luís Gomes
ABRIL!
25 de Abril sempre!
Helena Novais e Ruy Luís Gomes
Carta de Tulio Levi-Civita de 29 de Junho de 1936
(2) Carta de Aureliano de Mira Fernandes
(1) Carta de Aureliano de Mira Fernandes
Artigos de Jean Dieudonné na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de Sixto Ríos na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de Louis de Broglie na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Leopoldo Nachbin na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Alfredo Pereira Gomes na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de John von Neumann na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Maurice Fréchet na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Rodrigo Sarmento de Beires na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de J. Sebastião e Silva na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Hugo B. Ribeiro na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de Pedro José da Cunha na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Vicente Gonçalves na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Aureliano de Mira Fernandes na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de António Aniceto Monteiro na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Ruy Luís Gomes na "Portugaliae Mathematica"
O regresso de António Monteiro a Portugal de 1977 a 1979, por Alfredo Pereira Gomes
Professor António Monteiro and contemporary mathematics in Argentina, por Eduardo L. Ortiz
The influence of António A. Ribeiro Monteiro in the development of Mathematics in Brazil, por Leopoldo Nachbin
THE MATHEMATICIAN HUGO RIBEIRO, por Jorge Almeida
Artigos sobre António Aniceto Monteiro de Hugo Ribeiro, Ruy Luís Gomes e Luís Neves Real
Ficha 17.128 da PIDE
Sessão evocativa do centenário do nascimento de Ruy Luís Gomes, no Porto
Transiberiano
Excertos de "A revolução republicana de 31 de Janeiro"
Virgínia Moura e Maximiano Silva, amigos de Ruy Luís Gomes (notícias dos falecimentos)
3º Congresso da Oposição Democrática - Aveiro - 4 a 8 de Abril de 1973
Maurice Fréchet (1878-1973)
PORTUGUESE MATHEMATICAL JOURNALS - SOME ASPECTS OF (ALMOST) PERIODICAL RESEARCH PUBLICATIONS (José Francisco Rodrigues)
Transcrição do "Complemento ao curriculum vitae de Ruy Luís Gomes (vida política)"
Excertos de "Investigação Científica" (cinco artigos publicados no Diário de Lisboa), de Ruy Luís Gomes
GAZETA DE MATEMÁTICA, nº 150, de Janeiro de 2006
BOLETIM da Sociedade Portuguesa de Matemática, nº 53, de Outubro de 2005
GAZETA DE FÍSICA
Citação retirada de "O valor social da investigação científica"
Excerto da introdução ao livro "Conferências e Outros Escritos" de Bento de Jesus Caraça
Transcrição de "Bento Caraça - Grande Educador"
ALBERT EINSTEIN - E=mc^2: o mais urgente problema do nosso tempo
Citação retirada de "A relatividade – origem, evolução e tendências actuais"
Oferta da ES/3 Prof. Ruy Luís Gomes, Laranjeiro, Almada
Avenida Professor Ruy Luís Gomes - matemático, 1905-1984 [Laranjeiro, Almada]
Escola secundária com 3º ciclo do ensino básico Professor Ruy Luís Gomes, Laranjeiro, Almada
João de Freitas Branco
Fotografias de Ruy Luís Gomes com outras pessoas
Homenagem na ES/3 Prof. Ruy Luís Gomes no dia 3 de Janeiro
Homenagens
Jantares...
Porto - 200 anos de vida académica
Medalhas da Olimpíada Pernambucana de Matemática Ruy Luís Gomes
Cartaz da UTAD, 30 de Setembro de 2005
Alameda do Prof. Ruy Luís Gomes, Porto
SPM - Almoço em homenagem aos sócios mais antigos e ex-presidentes, 19 de Dezembro de 2005
Rua do Pinheiro Manso, 19, 3º D, Porto
Rua António Cândido, 256, 2º, Porto
Fernando Lopes Graça: 17 de Dezembro de 1906 - 27 de Novembro de 1994
Rua da Restauração, 430, Porto
Porto, 5 de Dezembro de 2005, Departamento de Matemática
Porto, 5 de Dezembro de 2005, Reitoria
O "Público" de 6 de Dezembro
O "Primeiro de Janeiro" de 5 de Dezembro
O "Diário de Notícias" de 5 de Dezembro
O "Jornal de Notícias" de 5 de Dezembro
Nuno Grande no "JN" de 5 de Dezembro: "Uma grata homenagem"
O Primeiro de Janeiro: "O cientista cívico"
Duas fotografias
MCTES enviou uma mensagem à Conferência comemorativa do centenário do Prof. Ruy Luís Gomes (1905–1984), no dia 5 de Dezembro, no Porto
A JUNTA DE EDUCAÇÃO NACIONAL, por Isabel Serra
JN: "O matemático-investigador que lutou pela democracia"
Goa Miscellania: "Centurion, Portuguese... and a stand"
100 anos
Fotografias de José Morgado e Ruy Luís Gomes com outras pessoas
Fotografia de Virgínia Moura, Ruy Luís Gomes e Lobão Vital entre outros
Carta de José Morgado e Ruy Luís Gomes ao Cardeal Cerejeira, datada de 12 de Abril de 1968, aquando da visita deste ao Brasil
Página da SPM sobre o centenário do nascimento de Ruy Luís Gomes
A Câmara Municipal do Porto anuncia o centenário
[Tullio] Levi-Civita (1873-1941), por Ruy Luís Gomes - Anais da Faculdade de Ciências do Porto, Vol. XXVIII, nº 1 (1943)
Miguel Urbano Rodrigues na UPP em 26 de Novembro: "Ruy Luís Gomes foi fundamental na denúncia do colonialismo"
(3ª parte de) O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
(2ª parte de) O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
(1ª parte de) O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
Universidade Popular do Porto: Homenagem a Ruy Luís Gomes em 26 de Novembro de 2005
O Ciência Hoje volta a assinalar o centenário de Ruy Luís Gomes
Transcrição da carta a Salazar, de 26 de Junho de 1954
Carta a Salazar, de 26 de Junho de 1954, a propósito da ida ao Congresso Internacional de Matemática
Carta do INTERNATIONAL CONGRESS CONGRESS OF MATHEMATICIANS 1954, datada de 31 de Março de 1954
Cartas para José Antunes Serra, da prisão da Ajuda (9 de Novembro de 1945) e da PIDE (19 de Outubro de 1946)
Transcrição da Carta ao Bispo do Porto (o caso da Índia)
Carta ao Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, escrita na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo em 29 de Novembro de 1956 (o caso da Índia)
O Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes
Ressalva Prisional, de 29 de Junho de 1956, e bilhete de M. J. Palma Carlos, de 11 de Fevereiro de 1957 (o caso da Índia)
Um Bilhete Postal de Armando Bacelar, datado de 1 de Fevereiro de 1955 (o caso da Índia)
Fotografias de Ruy Luís Gomes feitas pela PIDE
Prisões de Ruy Luís Gomes (excertos adaptados da ficha 17.128 da PIDE)
O caso da Índia
A Teoria da Relatividade - Espaço. Tempo. Gravitação, por Ruy Luís Gomes
Gago Coutinho e Ruy Luís Gomes
A RELATIVIDADE - Origem, evolução e tendências actuais (por Ruy Luís Gomes)
Ruy Luís Gomes – uma fotobiografia
(5º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - A escolha dos quadros dirigentes [Diário de Lisboa de 22 de Setembro de 1945]
(4º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - Mobilização nacional para o trabalho através da investigação [Diário de Lisboa de 10 de Setembro de 1945]
(3º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - A experiência alheia e a nossa necessidade [Diário de Lisboa de 10 de Agosto de 1945]
(2º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - Como evoluiu nos últimos 150 anos [Diário de Lisboa de 14 de Maio de 1945]
(1º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - A sua evolução nos últimos 50 anos [Diário de Lisboa de 23 de Abril de 1945]
Um estudo sobre a Matemática em Portugal no século XX, por Elza Amaral
Ruy Luís Gomes: Uma Fotobiografia (Natália Bebiano da Providência (coord.))
Reedições no âmbito das comemorações do centenário de Ruy Luís Gomes no Porto
Ruy Luís Gomes - cientista e revolucionário
Ruy Luís Gomes e Vasco Gonçalves
(4ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
(3ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
(2ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
(1ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
«31 de Janeiro» - 1891, por Eça de Queirós (Biblioteca Nacional)
PROBLEMAS DE INVESTIGAÇÃO E HISTÓRIA - Ruy Luís Gomes, Editorial Inova, Porto (1969)
Resultados das eleições de 1951...
Manifesto da Comissão Distrital do Porto do MND, de 12 de Julho de 1951
Carta de Quintão Meyreles dirigida a Craveiro Lopes
Telegrama de 6 de Julho de 1951 reclamando contra agressões em Rio Tinto
Carta de protesto relativa aos acontecimentos de Rio Tinto, dirigida a Salazar e datada de 5 de Julho de 1951
Fotografia de Ruy Luís Gomes ferido durante os acontecimentos de Rio Tinto em 3 de Julho de 1951
Manifesto sobre os acontecimentos de Rio Tinto, datado de 4 de Julho de 1951
Requerimento de Ruy Luís Gomes, dirigido ao Supremo Tribunal de Justiça, para que "considere o requerente elegível"
"Informação" anotada por Salazar
Telegrama em que Ruy Luís Gomes reclama a imediata libertação de democratas presos
Três telegramas em que se pede que seja declarada inconstitucional a Lei nº 2048 promulgada em 11 de Junho de 1951
Carta de Ruy Luís Gomes, dirigida a Salazar, datada de 13 de Junho de 1951, colocando as "condições mínimas" para a participação no acto eleitoral
Certificado do registo policial, a respeito de Ruy Luís Gomes, datado de 11 de Junho de 1951
Carta da Comissão Central do MND dirigida a Salazar, datada de 8 de Junho de 1951
"Ao Povo" - Manifesto eleitoral do candidato Ruy Luís Gomes, datado de 8 de Junho de 1951
Comissão do Livro Negro sobre o regime fascista - Eleições Presidenciais de 1951
Cronologia das eleições de 1951
Carta anunciando a licenciatura de Ruy Luís Gomes, de 19 de Dezembro de 1928
Uma notícia de "O Diário", no 3º aniversário da morte de Ruy Luís Gomes
Notícias sobre o falecimento de Ruy Luís Gomes em "O Diário"
Voto de pesar da Câmara Municipal do Recife
21 anos
Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro
Egas Moniz e Ruy Luís Gomes numa foto de conjunto
Movimento Matemático 1937-1947
O Governo Provisório da República em 1910
Ruy Luís Gomes e Alfredo Pereira Gomes
Ruy Luís Gomes e amigos
Ruy Luís Gomes e a esposa - Margarida Luís Gomes
A mãe de Ruy Luís Gomes
Fotos de família
Ruy Luís Gomes, o pai, a mãe e o irmão
Ruy Luís Gomes, o pai e o irmão - ambos António Luiz Gomes
Sobre a família de Ruy Luís Gomes - uma notícia de 15 de Março de 2000
Auto-retrato e fotografia de Abel Salazar, grande amigo de Ruy Luís Gomes
Notícias sobre a fundação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
"Estarei sempre ao lado da justiça e nunca do lado negro da vingança"
Primeira posse de Ruy Luís Gomes como Reitor
Aclamação de Ruy Luís Gomes em 4 de Maio de 1974
O pai de Ruy Luís Gomes - António Luiz Gomes
Cartas entre Guido Beck e cientistas portugueses, por Augusto J. S. Fitas e António A. P. Videira
Muito novo, no uso da palavra
Fotografia de um conjunto de matemáticos
Virgínia Moura, Ruy Luís Gomes e Lobão Vital
PORTUGALIAE MATHEMATICA
Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
Duas palestras lidas ao microfone de Rádio Clube Lusitânia (António A. Monteiro e Ruy Luís Gomes)
Fotografias de Ruy Luís Gomes
Extratos do livro MULHER DE ABRIL - álbum de memórias, de Virgínia Moura
O Ciência Hoje assinala o centenário de Ruy Luís Gomes
Na morte do Prof. Ruy Luís Gomes - ABRIL VENCERÁ!, por Virgínia Moura e José Morgado
AFINIDADES - Revista da Casa Museu Abel Salazar
Um professor português no Recife
Comemorações no Porto no dia 5 de Dezembro de 2005
À MEMÓRIA DE BENTO DE JESUS CARAÇA, por Ruy Luís Gomes
Segunda parte da revista VÉRTICE, números 412/413/414 (1978), dedicada a Bento de Jesus Caraça
Primeira parte da revista VÉRTICE, números 412/413/414 (1978), dedicada a Bento de Jesus Caraça
Gazeta de Matemática no ano da morte de Bento de Jesus Caraça
Bento de Jesus Caraça - Grande Educador, por Ruy Luís Gomes
Uma carta da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa, datada de 24 de Abril de 1953
Carta ao Reitor da Universidade do Recife, datada de 27 de Novembro de 1964
LA HISTORIA DE LA MATEMATICA EN BAHIA BLANCA (1972-1999), por Edgardo Fernández Stacco
A MATEMÁTICA NO BRASIL - Uma História de seu Desenvolvimento (por Clóvis Pereira da Silva)
Integral de Lebesgue-Stieltjes, por Ruy Luís Gomes
Integral de Riemann, por Ruy Luís Gomes
Dois meses antes de Abril...
Termo de posse como Reitor da Universidade do Porto
Ruy Luís Gomes - Reitor da Universidade do Porto
CURRICULUM VITAE POLÍTICO de Ruy Luís Gomes
CURRICULUM VITAE CIENTÍFICO de Ruy Luís Gomes
Ruy Luís Gomes - Resistente antifascista (artigo de Alberto Vilaça)
Carta a Pereira Gomes sobre a ida para o Recife - datada de 28 de Junho de 1961
Carta de Pereira Gomes convidando Ruy Luís Gomes a ir para o Recife - datada de 30 de Maio de 1961
Contribuição Matemática do Professor Dr. António A. R. Monteiro, por Luiz F. Monteiro
Declaração de António Monteiro e Silva Paulo relativamente a quantias recebidas da JIM
Uma carta de António Aniceto Monteiro, proveniente de S. Juan, Argentina, e datada de 27 de Abril de 1954
"O António Monteiro escreveu" - manuscrito de Abel Salazar
"Não há tempo a perder"... - uma carta de António Aniceto Monteiro
Teoria da Relatividade Restrita, por Ruy Luís Gomes
Homenagem a Ruy Luís Gomes - Departamento de Matemática da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, 30 de Setembro
José Manuel Sarmento de Beires - uma carta da penitenciária
Rodrigo Sarmento de Beires
José Duarte da Silva Paulo (1905-1976)
Fotografias de Bento de Jesus Caraça
A obra de investigação empreendida recentemente pelo Prof. Ruy Luís Gomes no domínio das matemáticas, por Luís Neves Real (1953)
"Para a História da Sociedade Portuguesa de Matemática", por José Morgado
Abel Salazar, por Carlos Vieira Reis
Cronologias
Lopes Graça, por Leonor Lains
Bento de Jesus Caraça, por Leonor Lains
Entrevista a MISCHA COTLAR, feita por Carlos Borches
Ministros desde 28 de Maio de 1926 até 24 de Abril de 1974
Memórias de José Relvas
Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável - o testemunho de Dias Lourenço
Defesa de Bento de Jesus Caraça
Nota de Culpa de Bento de Jesus Caraça
O Prof. Ruy Luis Gomes no Recife (Departamento de Matemática - UFPE), por Fernando Cardoso
Páginas do Departamento de Matemática - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil
Ciência em Portugal – Personagens e Episódios
Matemáticos entre a Argentina e o Brasil
Os 60 anos dos bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui - Excertos de um artigo de Ruy Luís Gomes no jornal «Avante!»
As eleições de 18 de Novembro de 1945
CENTRO DE MATEMÁTICA DA UNIVERSIDADE DO PORTO - MEMÓRIAS
INVENTÁRIO DO MATERIAL RECOLHIDO PARA A EXPOSIÇÃO DOCUMENTAL DE HOMENAGEM AO PROFESSOR RUY LUÍS GOMES
Tentativa Feitas nos Anos 40 para criar no Porto uma escola de Matemática, por Ruy Luís Gomes
À memória de Ruy Luís Gomes - Boletim da SPM nº 8 (Set. de 1985)
ANTONIO A. MONTEIRO (31/05/1907-29/10/80), por Edgardo Luis Fernández Stacco
Tipografia Matemática
"O verdadeiro poeta era ele" - um texto de José Gomes Ferreira sobre Bento de Jesus Caraça
A luta contra a guerra (Bento de Jesus Caraça)
RECORDANDO A DON RUY LUIS GOMES, por Edgardo Luis Fernández Stacco
Ruy Luís Gomes