Thursday, February 10, 2011

José Ribeiro Albuquerque, um homem grande [por Sérgio Ribeiro]

© Família de José Ribeiro de Albuquerque
Agradecimentos a
Rui Albuquerque que facultou as digitalizações
*
Um depoimento sobre José Ribeiro de Albuquerque, o “professor Albuquerque”, é tarefa que assumo com grande responsabilidade e alguma emoção.
O ano de 1953, ano em que entrei para o ISCEF, foi o do termo da primeira licenciatura, naquela escola, após a sua importante reforma de 1949, e foi também o da abertura da Faculdade de Economia do Porto, assim acabando o “monopólio” do ensino superior de economia em Lisboa, e no Quelhas.
A esta distância de quase seis décadas, sinto ter vivido um momento particularmente relevante, do que então não tive, evidentemente, consciência. Procurando sintetizar e valorizar o que o mereça, com a inevitável e discutível subjectividade, sobrelevo duas áreas, a de análise económica e a de matemáticas gerais.
Quanto à “análise económica”, era notória a influência de Pinto Barbosa e dos seus “três mosqueteiros” – Jacinto Nunes, Pereira de Moura e Teixeira Pinto – com a (diria…) influência tutelar do keynesianismo samuelsoniano, grande passo em frente no fascismo, que, no entanto, a alguns economistas desse meio dos anos 50 não bastava. Se o depoimento fosse sobre essa reforma, sobre a escola, sobre Jacinto Nunes ou Pereira de Moura, continuaria por esta via, de que apenas me sirvo para sublinhar a enorme importância que tinham, para os “caloiros” de então, a cadeira de “matemáticas gerais” do 1º ano e as cadeiras sequentes, de métodos quantitativos.
O que a memória me traz, avivada e, se possível, amadurecida pela experiência e pela reflexão, é a de uma cadeira do primeiro ano em que encontrei, pela primeira vez, o “professor Albuquerque”, cadeira que tinha uma função sobretudo “selectiva”, fazendo a triagem, na passagem para o segundo ano, enquanto “cadeira de precedência”, impedindo a passagem de ano, como o “chumbo” em Geografia Económica ou em Noções Fundamentais de Direito possibilitava… com “uma cadeira atrasada” e recuperável.
Pois essa cadeira-crivo, que nos parecia (incorrectamente) apenas para isso servir, tinha uma personalização sempre presente, José Ribeiro de Albuquerque, sabendo-se da existência, quase na sombra, de um professor Vicente Gonçalves, como se sabe de um fantasma, ou de um susto, ou de uma ameaça. E, pelo menos para mim, o “professor Albuquerque” como que moderava, como que amaciava a característica “assustadora” das “matemáticas gerais”.
Por duas razões.
Porque, na exposição da matéria, o “professor Albuquerque” parecia que entrava num outro mundo, num mundo seu. Quando expunha o teorema de Weierstrass, ou outros, parecia ter-se ausentado para a sua Pasárgada, e nela se isolava[i].
Sobre esta razão, recordo um episódio. Numa aula, em que o professor embalara, e ia enchendo o quadro negro – para nós enorme, para ele pequeno –, acompanhado pela música – para ele! – do riscar do giz, dois ou três alunos estavam distraídos e conversavam, com despropósito bastante para que o seu comportamento trouxesse o “professor Albuquerque” do seu mundo, do mundo que expunha e desenhava a traços brancos sobre fundo preto. O “professor Albuquerque” interrompeu, voltou-se para eles e, com a sua pausada e muito grave voz, apenas disse “os senhores… ai na penumbra habitual da direita… por favor, não perturbem a exposição”, e voltou à sua tarefa, ao seu mundo.
Outra razão, aliás já bem presente na anterior, resultava da sua personalidade. O “professor Albuquerque” era de uma delicadeza e simpatia inexcedíveis, embora sem conceder facilidades ou aberto a intimidades. Um aluno era diferente dele por ser um aluno, mas era, para ele, a si igual enquanto outro.
Como seu aluno, mais de uma vez fui a sua casa, a Campo de Ourique, de onde ele descia, a pé, para o Quelhas, pelo tempo primaveril com as suas sandálias, que contrastavam com o formalismo da indumentária que caracterizava a época, quer entre professores, quer entre alunos. Nessas minhas idas a sua casa, para uma explicação ou para saber resultados de avaliações e suas fundamentações, fui sempre recebido com muita simpatia e afabilidade, e informado e ajudado. É o único docente a casa de quem me lembro de ter ido como aluno…
Mais tarde, depois dos dois anos em que o tive como professor, conheci José Ribeiro de Albuquerque noutras circunstâncias. Primeiro, sabendo das suas ligações ao Partido Comunista a que eu aderira, depois através de contacto directo, em episódios na chamada “crise de 1962”.
Tendo eu sido incumbido da tarefa de contactar economistas e professores do ISCEF para mobilizar apoios para a luta dos estudantes, tive do camarada José Ribeiro de Albuquerque uma ajuda extraordinária. E, quando foi decidida a greve da fome na cantina da cidade universitária, no meio dos estudantes que ocupavam a cantina, solidários e em apoio logístico ao grupo de grevistas, acompanhei o “professor Albuquerque” ao local, com a esposa, onde se sentaram numa mesa, e ficaram, discretamente, na atitude de quem, apesar de algumas décadas de diferença, está onde deve estar, entre os seus. E assim foram sentidos.
Mas havia outras circunstâncias. E, na minha tarefa, em que me sentia na obrigação – e tinha o prazer! – de, de vez em quando, me sentar na mesa com aquele simpático e determinado casal, para o informar sobre a situação e conversar um pouco, houve um momento em que, dada a quase certa invasão da polícia, depois de goradas algumas provocações ensaiadas por um grupo de fascistas que fizera quartel-general numa casa perto do Saldanha – onde nos conseguíramos infiltrar –, foi decidido que alguns de nós deveriam evitar ser detidos, e entre eles o “professor Albuquerque”. Fui, naturalmente, encarregado de lhe comunicar a decisão, que também me incluía, por já ter saído da Universidade há 4 anos e, como membro do PCP, estar integrado na luta clandestina.
Não foi fácil convencer o “professor Albuquerque”. Por vontade pessoal, ficaria onde estava, ali sentado e solidário, a acompanhar os grevistas e os outros estudantes, até à invasão da polícia, até porque, argumentava ele, a sua posição de apoio à luta dos estudantes era conhecida da PIDE, como decerto o era a sua presença ali. Quase foi necessário invocar disciplina partidária para o fazer ir para a casa. E foi por pouco tempo que escapou a ser levado para Caxias, o que fora considerado como podendo ter resultados negativos na luta mais global contra o fascismo em que aquela luta, de tão grande relevância, se integrava.[ii]
Teria sido das últimas vezes, em Maio de 1962, em que estive com ele antes de Abril de 1974. Depois, quando fui docente no então já ISE, algumas vezes me cruzei com José Ribeiro de Albuquerque na “nossa Escola”, sempre com a mesma postura, coerente e firme, afável e solidário. Com saudade o lembro e tenho pena de não termos tido maior contacto. Mas a vida e a luta apenas nos proporcionaram aqueles que tivemos. E de alguns, destes, presto grato e comovido testemunho.
-
[i] - agora, quando escrevo, lembro Lopes Graça a reger o Coro dos Amadores de Música, e Mário Castrim a escrever que o único amadorismo que aceitava era o do profissional que ama a sua profissão.

[ii] - justo é também referir, neste episódio (e neste testemunho), as presenças e atitudes solidárias e firmes dos professores Lindley Cintra e Pereira de Moura.

Tuesday, December 28, 2010

José Ribeiro de Albuquerque e Luís de Albuquerque... ou a estória da troca de nomes numa fotografia

Fotografia de um conjunto de matemáticos durante a visita de Maurice Fréchet a Lisboa
Lista de matemáticos da fotografia precedente escrita pela mão de Hugo ou Pilar Ribeiro
Ruy Luís Gomes e José Ribeiro de Albuquerque
(fragmento da Fotografia de um conjunto de matemáticos durante a visita de Maurice Fréchet a Lisboa)
José Ribeiro de Albuquerque e Maurice Fréchet
(fragmento de Fotografia tirada durante a visita do matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa (1942))

José Ribeiro de Albuquerque e António Aniceto Monteiro
(fragmento de uma das Fotografias tiradas durante a visita do matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa (1942))


Fui a casa de Pilar Ribeiro, com um colega, no dia 12 de Junho de 2006 com o propósito de ele trazer o resto do espólio do casal Hugo e Pilar e eu digitalizar as fotografias existentes. As imagens sobre a visita de Maurice Fréchet e sobre os passeios no Tejo têm essa proveniência.
Nas costas da Fotografia de um conjunto de matemáticos durante a visita de Maurice Fréchet a Lisboa estava uma lista, escrita por Pilar ou Hugo, provavelmente, que reproduzo aqui, e na qual constava o nome de Luís de Albuquerque conforme se pode ver.
Eu conhecia a fácies de Luís de Albuquerque e não a reconhecia na fotografia, mas submeti-me ao veredicto, difícil de contornar, da lista. O nome dos matemáticos assim apareceu, como estava na lista, na Fotobiografia de António Aniceto Monteiro e nos blogues RUY LUÍS GOMES e ANTÓNIO ANICETO MONTEIRO.
Há uns tempos o Prof. José Vitória, da Universidade de Coimbra, chamou-me a atenção para o provável erro. Hoje, recebi uma mensagem do professor da Universidade de Évora, Rui Albuquerque, com o seguinte teor: «Venho apenas informá-lo de uma certeza que sempre tive, e um erro a que sempre dei o benefício (da dúvida alheia). Com efeito, a segunda pessoa na “Fotografia de um conjunto de matemáticos durante a visita de Maurice Fréchet a Lisboa” (que está no seu blogue sobre Aniceto Monteiro) é o meu falecido tio-avô: José Ribeiro de Albuquerque (e não o Luís de Albuquerque, como sempre vi escrito em várias exposições). Já reparei que encontrou um colega, José Vitória, que concorda comigo. Isso reforçou a minha certeza, que já se devia ter feito sentir há mais tempo.»
O mesmo erro existe em Movimento Matemático 1937-1947 e em Ruy Luís Gomes – uma fotobiografia, provavelmente tendo a mesma origem.
Fica aqui a rectificação (definitiva!).

Sunday, July 17, 2011

Soeiro Pereira Gomes, já doente, em Lisboa

(...)
Quando [Soeiro Pereira Gomes] passou para o Regional do Ribatejo (então já independente do Regional de Lisboa) deixámos de ter contactos durante uns anos. Só depois, na fase em que volta para Lisboa, mas já doente, é que vivemos juntos numa casa que ainda existe cm Campolide. Nessa casa vivia também a Margarida, a Georgette e um outro camarada. Éramos 5. Fui eu até quem acompanhou o Joaquim ao consultório do Dr. Ângelo Pena quando ele teve de ser submetido a uma primeira análise relacionada com a sua doença. Uma análise muito dolorosa que muito me impressionou e não gosto de lembrar.
Ainda voltámos a estar juntos, mas depois ele foi para outra casa. Tinha diagnosticado a si próprio o cancro e, então, passava o tempo a escrever. Escrevia, escrevia, contra o tempo, contra a morte. Mas não pode fazer a revisão total do seu romance Engrenagem, como desejava.
Faleceu 4 dias antes de eu entrar pela primeira vez na prisão. E foi na prisão que pude ler essa obra que o ocupou ate ao seu ultimo alento.
(Depoimento de António Dias Lourenço no livro de Manuela Câncio Reis A Passagem. Uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, páginas 165 e 166)

(...)
Uma riqueza de projectos, generosos, que as peripécias da clandestinidade e a doença impediram de realizar. Pereira Gomes teve apenas tempo de cumprir uma promessa e um propósito: corrigir Engrenagem. Álvaro Cunhal lembra uma carta que Soeiro, já muito doente, escreveu ao Partido em que se propunha trabalhar «apenas como escritor», e António Dias Lourenço recorda-o a corrigir o romance poucos meses antes de morrer, quando vivia numa casa em Campolide, em Lisboa. Esgotadas as energias, com o cancro a roer-lhe o peito, Soeiro reivindica a sua vocação de escritor. Retoma, então, as 79 páginas do manuscrito, a cópia que tinha guardado religiosamente ao longo dos cinco anos de clandestinidade, de andanças e de refúgios perdidos, e começa uma obra de revisão não apenas no plano estético, como é comum entre escritores e poetas, mas também, e profundamente, no plano ideológico, o que me parece um caso único na literatura portuguesa, de tal modo que, um pouco paradoxalmente, poderia falar em Engrenagem-um e Engrenagem-dois.
(...)
(Giovanni Ricciardi: Soeiro Pereira Gomes – Uma biografia literária, página 185)
(...)
Soeiro, como representante do Partido Comunista no MUD e no MUNAF, apoia essa candidatura [de Norton de Matos], faz campanha eleitoral, visita o general na sua casa de Ponte Lima na companhia de Azevedo Gomes, Jacinto Simões e do irmão Jaime, mantém ligações com as outras forças democráticas, participa em reuniões e esconde-se, esconde-se, esconde-se sempre. Conta o irmão Alfredo:

Lembro-me de um dia ter ido a casa dum colega, Ribeiro de Albuquerque, professor de matemática. Ele veio receber-me com ar de júbilo e disse-me para esperar que voltaria logo. O que se passava era que essa era uma casa de apoio e o meu irmão Joaquim estava lá. O meu amigo foi perguntar ao Joaquim se me queria ver e ele respondeu que não, pois estas eram as instruções.

Alfredo, tempos depois, em França, conta o que tinha acontecido a Álvaro Cunhal, que confirmou serem essas as instruções, mas que na ocasião Joaquim tinha exagerado um pouco. Outra vez, em Tomar, saiu apressadamente do restaurante e... sem pedir licença, porque, explicará depois ao irmão Jaime, tinha entrado um velho condiscípulo que o poderia reconhecer. Em Lisboa, proíbe Alexandre Cabral, que o acompanhava ao médico na Avenida da Liberdade, de descer do carro, que quase tinha atropelado um peão, dizendo: «'mbora, pá, despacha-te!». O perigo de ser reconhecido, comenta Cabral, era grande, sobretudo em Lisboa, e a defesa também devia ser férrea e rígida.
(...)
(Giovanni Ricciardi: Soeiro Pereira Gomes – Uma biografia literária, páginas 216-217)
Ver ainda:
Fotografia de um conjunto de matemáticos durante a visita de Maurice Fréchet a Lisboa

Nota: «Joaquim» é Joaquim Pereira Gomes, o escritor que assinava Soeiro Pereira Gomes. Assim «Soeiro» é Joaquim Pereira Gomes (1). «Alfredo» e «Jaime» são dois dos seus irmãos, Alfredo Pereira Gomes e Jaime Pereira Gomes. Antes de «Esteiros» Joaquim/Soeiro era conhecido por «Pereira Gomes». A casa de «Campolide» pode ter sido - ou não - a de José Ribeiro de Albuquerque, localizada, de facto, em «Campo de Ourique», na Rua Tomás da Anunciação, 27, 4º E. «Azevedo Gomes» é Mário de Azevedo Gomes, professor do ISCEF, que, em 1946, tinha sido expulso conjuntamente com Bento de Jesus Caraça, como se pode ler neste blogue. No ano de 1949, a que se referem os trechos da «biografia literária» citados, em 25 de Março, Álvaro Cunhal foi preso no Luso. Soeiro Pereira Gomes faleceu nesse ano no dia 5 de Dezembro. O encontro de Alfredo com Álvaro em Paris deve ter-se dado nos anos 60 ou início dos anos 70, depois da fuga de Peniche e da ida do matemático do Brasil para França. Alfredo Pereira Gomes regressou definitivamente a Portugal em 1972. JR

(1) «Envolto em alguma imprecisão está também o momento em que Soeiro decidiu usar o apelido da mãe, tornando-o patente no seu próprio nome. No seu primeiro conto tinha assinado como `J. S. Pereira Gomes", mais tarde adopta apenas os dois últimos apelidos. É nos "Esteiros" que se denota uma certa oscilação: na folha de rosto do original dactilografado com emendas manuscritas, que datamos entre Maio e Agosto de 1941, surge como autoria "Joaquim Pereira Gomes"; na 1ª edição de "Esteiros", aparece pela primeira vez o nome "Soeiro Pereira Gomes" apenas na capa, pois na folha de rosto do livro, a autoria surge como "Pereira Gomes", assim como na 2ª e 3ª edições desta obra, nestes casos na capa e na folha de rosto. Até que ponto Soeiro interferiu nestas escolhas, ou foram decisões da editora?» Soeiro Pereira Gomes - Na Esteira da Liberdade

Wednesday, October 12, 2005

Fotografia de um conjunto de matemáticos


Fotografia tirada durante a visita do matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa, Escola Politécnica (1942). Da esquerda para a direita: Hugo Ribeiro, Armando Gibert, António Aniceto Monteiro, Manuel Zaluar, Bento de Jesus Caraça, Maurice Fréchet, José Sebastião e Silva, Ruy Luís Gomes, Luís de Albuquerque(1,2), Augusto Sá da Costa.
(legenda baseada nos dados do livro Movimento Matemático, 1937-1947)
Na Faculdade de Ciências de Lisboa, nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1942 e nos dias 2, 4, 5 e 6 de Fevereiro, Maurice Fréchet fez várias conferências. Ver
(1) Pode ser Ribeiro de Albuquerque, segundo informação do Prof. José Vitória a quem se agradece.
(2) Trata-se, de facto, de José Ribeiro de Albuquerque como se pode ler em José Ribeiro de Albuquerque e Luís de Albuquerque... ou a estória da troca de nomes numa fotografia

Tuesday, October 20, 2009

Bento de Jesus Caraça, militante da cultura integral do indivíduo

Jorge Rezende
Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Grupo de Física Matemática da Universidade de Lisboa

Bento de Jesus Caraça nasceu em 1901, em Vila Viçosa, filho de trabalhadores rurais. Viveu os primeiros anos da sua vida na Herdade da Casa Branca, na freguesia de Montoito, onde aprendeu a ler e a escrever com um trabalhador. Tendo notado a sua grande inteligência, a esposa do patrão do pai decidiu encarregar-se dele e custear os seus estudos.
Foi sempre um aluno muito brilhante tendo frequentado liceus em Santarém e Lisboa (Pedro Nunes), e entrado para o Instituto Superior do Comércio, mais tarde designado Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) – o actual Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) – onde terminou o curso em 1923.
Ainda estudante foi 2º Assistente de Aureliano de Mira Fernandes. Passou a 1º Assistente em 1924 e foi nomeado Professor Catedrático em Dezembro de 1929, a pouco tempo de completar apenas 29 anos.
Nos anos 30 era já uma pessoa com um enorme prestígio, sobretudo entre a juventude. Isso deve-se principalmemte ao facto de ter sido um dos fundadores da Universidade Popular Portuguesa (com apenas 18 anos!) tendo chegado à presidência em 1928, iniciando a sua reactivação e reorganização. Foi aí e noutras associações que deu as suas célebres conferências que começaram a fazer dele uma figura lendária entre as classes populares. De entre aquelas que ficaram célebres destaco «A Vida e Obra de Evaristo Galois», 1932, «Galileo Galilei» - valor científico e valor moral da sua obra», 1933, «Escola Única», 1935, e, particularmente, «A Cultura Integral do Indivíduo - problema central do nosso tempo», 1933. Ver [1].
Também contribuiram para o seu prestígio os inúmeros artigos que escreveu para algumas revistas, como, por exemplo, «A Luta Contra a Guerra», 1932, «Abel e Galois», 1940, «Galileo e Newton», 1942. Respondendo a críticas de António Sérgio, trocou com este várias cartas, na revista Vértice, em 1946, que ficaram célebres como uma das mais importantes disputas ideológicas do nosso século XX. Ver [1].
Em 1936 é fundado o «Núcleo de Matemática, Física e Química», em Lisboa, cujos principais impulsionadores são António da Silveira, Manuel Valadares e António Aniceto Monteiro. Com o o «Núcleo» dá-se início a um movimento muito mais amplo de renovação científica em moldes modernos e com padrões internacionais que, na matemática, veio a ser conhecido como «Movimento Matemático» e que só foi aniquilado em 1946-1947 com as expulsões de muitos professores universitários.
O «Núcleo» contava também com a colaboração muito activa de Bento de Jesus Caraça, que foi um dos seus fundadores – o único que não tinha feito estudos de doutoramento no estrangeiro – tendo sido ele a dar início às suas actividades em 16 de Novembro com a primeira lição de um curso sobre «Cálculo Vectorial». Acompanha este artigo o cartaz que anuncia este curso.
Criado com ambições mais vastas, nomeadamente no que diz respeito à investigação científica, o «Núcleo» limitou-se essencialmente a ministrar cursos de elevado nível, o primeiro dos quais foi o de Bento Caraça. A ideia era a de serem publicados em livro, o que só acabou por ser feito com os ministrados por Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes e Amorim Ferreira, em edições de muito boa qualidade. Embora o fascismo lhe tivesse movido perseguições diversas, entre as quais dificultando a utilização das Universidades, o «Núcleo» acabou por se dissolver, por divergências internas, em 6 de Novembro de 1939.
Mas o «Movimento Matemático» – cujas principais figuras foram António Aniceto Monteiro, Bento Caraça e Ruy Luís Gomes – tinha já dado início a mais iniciativas que, essas, continuaram. Destacarei apenas aquelas em que Bento Caraça participou.
Com Aureliano de Mira Fernandes e Caetano Maria Beirão da Veiga fundou, em 1938, o «Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia», no ISCEF, onde os três eram professores. Foi seu director até à sua extinção, por decisão ministerial, em Outubro de 1946.
Fundou, em 1939, com António Monteiro, Hugo Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar, a «Gazeta de Matemática», cujo primeiro número saiu em Janeiro de 1940.
Participou na fundação da «Sociedade Portuguesa de Matemática» (SPM), em 12 de Dezembro de 1940, tendo sido presidente da sua Direcção no biénio de 1943-1944.
Testemunho de toda a efervescência científica da época é a fotografia de conjunto que ilustra este artigo e que foi tirada durante a visita do grande matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa, na «Escola Politécnica», em 1942, onde fez várias conferências. Podem-se ver, da esquerda para a direita, além do convidado, figuras cimeiras do «Movimento Matemático»: Hugo Ribeiro, Armando Gibert, António Aniceto Monteiro, Manuel Zaluar, Bento de Jesus Caraça, Maurice Fréchet, José Sebastião e Silva, Ruy Luís Gomes, José Ribeiro de Albuquerque, Augusto Sá da Costa.
Em 1941, fundou a «Biblioteca Cosmos», de que foi o único director até Junho de 1948, e que foi a grande resposta cultural adequada ao ambiente de repressão existente. A «Biblioteca Cosmos» editou «145 números correspondendo a 114 títulos agrupados em sete secções»[2], «com uma tiragem global de 793 500 exemplares»[3], e constituiu a mais importante iniciativa de divulgação da ciência e da cultura realizada em Portugal no século XX. António Dias Lourenço conta assim como nasceu a «Cosmos»[4]:
«Em Angra [do Heroísmo, na prisão], Manuel Rodrigues [de Oliveira] encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: “Ó Bento – eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira... Tens alguma ideia da utilidade possam ir a ter?”. E o Bento Gonçalves respondeu: “Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão – cultural e revolucionária. E olha – a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele – dizes que vais da minha parte – e pões-lhe esse problema”. Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção. Foi este o ponto de partida para a criação da “Cosmos”».
Foi na «Biblioteca Cosmos» que publicou os dois primeiros volumes do seu livro «Conceitos Fundamentais da Matemática», e que só em 1951 seria publicado na íntegra. É aqui que Bento de Jesus Caraça mostra as suas extraordinárias qualidades de divulgador da Matemática. Este seu livro constitui uma obra que continua a ser referência para quem se quiser iniciar nos aspectos técnicos, históricos e filosóficos desta Ciência. Mantém-se, sem dúvida, até os nossos dias, como o melhor livro de divulgação de Matemática escrito por um português.
Bento de Jesus Caraça participou também activamente na resistência política semi-clandestina e clandestina. Destaco a sua participação no MUNAF e no MUD.
Em Dezembro de 1943 constituiu-se, na clandestinidade, o «Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista», órgão de direcção do «Movimento Nacional de Unidade Anti-Fascista» (MUNAF). Álvaro Cunhal recorda esse facto assim: «O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio»[5].
Em 1945, com a fim da guerra, na sequência das manifestações de rua comemorando a vitória sobre o nazi-fascismo, foi fundado o «Movimento de Unidade Democrática» (MUD) a cuja Comissão Central pertencia Bento de Jesus Caraça. Em 1946 o MUD publica o documento «O MUD perante a admissão de Portugal na ONU», assinado pela respectiva Comissão Central, o que conduziu à expulsão da Universidade Técnica de Bento de Jesus Caraça e Mário de Azevedo Gomes por despacho do Ministro da Educação Nacional.
Bento Caraça viria a morrer dois anos depois. Ruy Luís Gomes escreveu o seguinte na Gazeta de Matemática que assinala o seu falecimento:
«Na verdade, Bento Caraça pertenceu ainda a uma geração que fez a sua própria preparação, no domínio da Matemática, numa época em que as nossas Escolas Superiores estavam inteiramente enformadas pelo velho e desastroso conceito de que se pode ser um grande professor universitário sem nunca se ter patenteado, na análise exaustiva de algum problema concreto, a garra ou, pelo menos, o sentido de investigador. (...)
Bento Caraça não foi, pois, um investigador, mas superando o meio em que foi educado e lançando-se desde muito novo nas tarefas do ensino, em breve se juntou aos que deram o primeiro passo para fazer triunfar nas nossas Escolas Superiores uma nova concepção da vida universitária».[6]
Não foi só o acaso que levou a que tenha sido Bento de Jesus Caraça a fazer as palestras que marcam historicamente o início do «Movimento Matemático» e que a sua expulsão em 1946 e a sua morte em 1948 tenham coincidido com o aniquilamento, pelo fascismo, daquele movimento de renovação científica. De facto, Bento de Jesus Caraça simboliza uma época de resistência e de luta pela modernização, pela divulgação e pela popularização da Ciência em Portugal. Simboliza ainda toda uma geração de cientistas, de intelectuais, de trabalhadores, de jovens que lutaram pelo acesso do povo ao Ensino, à Cultura, à Ciência, à Paz e à Liberdade.

Referências
[1] Bento de Jesus Caraça, Conferências e outros escritos. Lisboa, 1978.
[2] António de Sequeira Zilhão, O Prof. Bento de Jesus Caraça, LER editora, Lisboa, 1981.
[3] Manuel Rodrigues de Oliveira, Biblioteca Cosmos -114 títulos com uma tiragem média de 6960 exemplares. Em «Seara Nova» 1472 de Junho de 1968, Bento de Jesus Caraça no 20° aniversário da sua morte – presença e actualidade.
[4] António Dias Lourenço, Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável.
http://www.pcp.pt/actpol/temas/100-bento-jesus-caraca/testemunho-dias-lourenco.html
http://ruyluisgomes.blogspot.com/2008/08/o-testemunho-de-antnio-dias-loureno.html
[5] Álvaro Cunhal, Bento Caraça – insigne intelectual comunista.
http://www.pcp.pt/actpol/temas/100-bento-jesus-caraca/insigne-intelectual-comunista.html
http://ruyluisgomes.blogspot.com/2008/11/bento-caraa-insigne-intelectual.html
[6] Ruy Luís Gomes, Bento Caraça, grande educador. Em «Gazeta de Matemática» 37-38, Agosto-Dezembro de 1948.
http://ruyluisgomes.blogspot.com/2006/01/transcrio-de-bento-caraa-grande.html

Sunday, February 23, 2014

Movimento de Unidade Democrática (lista do Jornal República de 10 de Novembro de 1945)


Manuel Valadares, Mário de Castro, Bento Jesus Caraça, Francisco Mendes, Manuel Zaluar Nunes, Aurélio Marques da Silva, Gustavo de Castro, Jaime Xavier de Brito, Irene Lisboa, Vergílio Ferreira, Mário Dionísio, Manuel Mendes, António José de Sousa, Câmara Reis, Fernando Lopes Graça, Flausino Torres, Cândido Costa Pinto, Emílio Costa, Alberto Candeias, Maria Archer, Emílio Aparício Ferreira, Ferreira de Castro, Alves Redol, Manuel Campos Lima, Mário Tavares Chicó, Avelino Cunhal, Edmundo Bettencourt, Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Alice Pereira Gomes, Raul do Rego, Manuel Malheiro Fernandes Viana, Euclides da Silva Vaz, António da Rocha, Manuel da Fonseca, António Passos, João de Barros, João de Deus Ramos, Rocha Martins, Adriano de Gusmão, Aleixo Ribeiro, Henrique T. Queiroz de Barros, Edmundo Curvelo, Aquilino Ribeiro, Carvalhão Duarte, João Falcato, Castro Soromenho, José Régio, Hernâni Cidade, Jacinto do Prado Coelho, Augusto Casimiro, Campos Lima, Vitorino Nemésio, João da Silva, F. A. da Costa Cabral, João Soares, Magalhães Vilhena, João de Oliveira Machado, Fernando da Costa Cabral, Assis Esperança, Arlindo Vicente, José Gomes Ferreira, Armindo José Rodrigues, Mário Neves, José de Bragança, Julião Quintinha, Roberto Nobre, Cristiano Lima, Jaime Leitão, Gomes Monteiro, Manuel L. Rodrigues, J. Ferreira de Albuquerque, Mário Rosa, Ramada Curto, Norberto Lopes, Artur Portela, Manuel Nunes, José Ribeiro dos Santos, Norberto de Araújo, Carlos Ferrão, Francine Benoit, Visconde da Lagoa, José Bacelar, Mário Sacramento, Pulido Valente, Manuel Rodrigues Lapa, Carlos F. Torre de Assunção, Francisco Ramos da Costa, Lopes de Oliveira, José da. Freitas, César dos Santos, Guedes de Amorim, Pinto Quartim, Francisco José Tenreiro, Armando Ventura Ferreira, João Pedro de Andrade, M. Ramos da Cunha, Faure da Rosa, Mário Armando de Oliveira Soares, Pedro Augusto Franco dos Anjos Teixeira, Maurício Meireles Penha, Júlio Pomar, Vasco Pereira da Conceição, José Farinha, António dos Santos, Manuel de Oliveira, Júlio Santos, Lino António, João de Melo Falcão Trigoso, Celestino de Sousa. Alves, Álvaro Perdigão, Manuel Ribeiro de Pavia, Castelo Branco Chaves, Manuela de Azevedo, Álvaro Salema, Lília da Fonseca, Frederico George, Manuela Porto Araújo Pereira, Roberto Araújo, Manuela Lima, Armando Mesquita, José Miranda do Vale, Idalino Rodrigues Gondim, João Rodrigo de Oliveira, Fernando Marques da Silva, Augusto Leite da Costa, José Ferreira Huertas Lobo, João Simões, Francisco de Assis, Alfredo Guisado e Lobo Vilela.
-
Ver:
Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo (Revista Vértice 166)