Thursday, June 11, 2009

A luta dos Antifascistas Portugueses do Brasil contra a ditadura de Salazar e o Colonialismo, por Miguel Urbano Rodrigues

No dia 25 de Maio, Miguel Urbano Rodrigues pronunciou em Grenoble, dirigindo-se a estudantes franceses e portugueses, uma conferencia, patrocinada pelo Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade Stendhal e pela Maison de la Culture Portugaise de Grenoble, sobre a luta dos antifascistas portugueses do Brasil contra a ditadura de Salazar e o colonialismo. Publicamos hoje o texto da sua intervenção.

Miguel Urbano Rodrigues

A luta dos antifascistas portugueses contra a ditadura de Salazar nos países para onde tinham emigrado é um tema quase ignorado na Europa, nomeadamente em França.
Os exilados desempenharam contudo um papel importante no combate ao fascismo, sobretudo na América Latina e no Canadá.
É da minha experiência de 17 anos de luta como exilado político no Brasil que vos vou falar.
Um jornal, o «Portugal Democrático», contribuiu decisivamente para o êxito do trabalho desses antifascistas, funcionando como elo de ligação entre os núcleos da emigração democrática da América e da Europa.
Dois períodos muito diferentes marcaram a vida desse jornal mensal, editado em São Paulo, no Brasil, com uma tiragem média de 4.000 exemplares.
O primeiro vai desde a fundação em 1956 ao golpe de estado que instaurou a ditadura no Brasil, em Abril de 1964.
Desde o início o jornal foi hostilizado pela embaixada portuguesa e pelo poderoso lobby salazarista que editava no Rio dois semanários de grande tiragem.
Os exilados portugueses contaram sempre com o apoio dos intelectuais progressistas brasileiros, nomeadamente na Universidade de São Paulo, do Partido Comunista, dos estudantes e do movimento sindical.
Para essa solidariedade contribuiu o facto de destacadas personalidades da oposição democrática terem optado pelo Brasil como terra de exílio. Entre elas, dois ex candidatos à Presidência da República, o general Humberto Delgado e o Prof. Ruy Luis Gomes, e o capitão Henrique Galvão, que comandou o sequestro nas Caraíbas do paquete Santa Maria. Em universidades e em grandes diários marcaram presença académicos, políticos escritores e jornalistas prestigiados como José Morgado, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Sidónio Muralha, Fernando Lemos, Vitor Ramos, Barradas de Carvalho, Castro Soromenho, Maria Archer, Tito de Morais, Manuel Sertório e Vitor Cunha Rego.
Até 1964 os grandes diários brasileiros, com poucas excepções, adoptavam uma posição crítica perante o fascismo português e abriam as suas colunas aos intelectuais exilados. Essa atitude alterou-se após a implantação da ditadura militar.
A grande imprensa e as cadeias de televisão reduziram então ao mínimo as criticas ao regime português. Temiam desagradar ao governo do general Castelo Branco que mantinha relações cordiais com o de Salazar.
Perante a guerra colonial foi diferente a posição dos media. Com excepção da extrema-direita, manifestavam simpatia pelos movimentos de libertação que em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau lutavam pela independência dos respectivos povos.
O governo dos generais adoptou uma posição ambígua. Não condenou o colonialismo português, mas permitiu que os exilados continuassem a denunciar os seus crimes e a expressar a sua solidariedade com o MPLA, a FRELIMO e o PAIGCV.Por um lado, o governo de Brasília não desconhecia os sentimentos anti-colonialistas da esmagadora maioria dos brasileiros. Por outro lado, consciente de que a independência das colónias era uma inevitabilidade histórica, considerava que o apoio as guerras de Salazar pesaria negativamente nas futuras relações do Brasil com os países africanos de língua portuguesa. Na ONU não apoiava a posição de Lisboa nos debates sobre a descolonização.
Mas a polícia politica, o DOPS – o chamado Departamento de Ordem Politica e Social de São Paulo – acompanhou sempre com desconfiança a actividade dos democratas portugueses.
Anos antes do golpe militar, quando, por iniciativa da embaixada, uma comissão de notáveis da colónia promoveu num grande pavilhão de São Paulo um encontro de hóquei em patins entre as selecções de Angola e do Brasil para recolher fundos destinados às «vitimas da guerra colonial» (leia-se os colonos mortos) o DOPS compareceu em força no recinto e prendeu os portugueses que protestavam. Eram poucos e haviam sido agredidos por grupos de fascistas, mas foram eles e dois angolanos os detidos sob a acusação de «subverterem a ordem pública».
Em 1964 o golpe militar colocou o núcleo que editava o «Portugal Democrático» perante um desafio: tentar manter o jornal numa época em que a repressão contra os intelectuais brasileiros era intensa.
Desde o início da guerra colonial as divisões existentes na oposição ao regime tinham-se aprofundado no Brasil. Henrique Galvão, que fora recebido como um herói pelos universitários brasileiros após o sequestro do «Santa Maria», desaprovava a luta dos movimentos de libertação e, afirmando que o povo angolano não estava preparado para exercer o direito à autodeterminação e independência, defendia uma solução neocolonial para a grande colónia.
Outra era a posição do general Humberto Delgado. Condenava com firmeza a guerra colonial e, embora usando uma linguagem cautelosa, reconhecia o direito dos angolanos à autodeterminação.
A ambição de poder de Henrique Galvão e o seu anticomunismo agressivo terão contribuído para a ruptura dos dois dirigentes, quase imediata.
Delgado era ideologicamente um conservador, mas tomou consciência de que o pólo mais dinâmico da oposição antifascista era o núcleo comunista, com o qual manteve relações nem sempre fáceis, mas correctas.
O general já tinha porém abandonado o Brasil para se fixar em Argel quando a implantação da ditadura produziu novas clivagens na oposição antifascista e dificultou mais a luta dos exilados revolucionários e veio reforçar a vigilância policial a que estavam submetidos.
O núcleo comunista decidiu manter o «Portugal Democrático» cujo conselho de redacção foi alterado com a saída de Casais Monteiro e Jorge de Sena.
Ficou formado por Augusto Aragão, Joaquim Barradas de Carvalho, Miguel Urbano Rodrigues e Manuel Sertório (não comunista ). Quando o último viajou para Argel a fim de integrar a Frente Portuguesa de Libertação Nacional, foi substituído pelo engenheiro Francisco Vidal, o único não comunista da equipa.
O governo brasileiro não reagiu à continuação do «Portugal Democrático». Para satisfação nossa, ignorou a edição posterior ao golpe, tal como tinha ignorado as anteriores. Julgo útil salientar que o jornal não se desviou minimamente da sua linha editorial, ostensivamente marxista. Esse número incluiu inclusive um artigo de crítica ao radicalismo pequeno burguês, com citações da obra de Lenine sobre «O esquerdismo, doença infantil do comunismo».
Uma opção da qual nunca nos afastamos foi a de excluir sempre do conteúdo do «Portugal Democrático» qualquer referência a temas da vida política brasileira que não estivessem directamente relacionados com a nossa luta contra o fascismo e o colonialismo português.
Obviamente, as iniciativas brasileiras de solidariedade com as vítimas da repressão em Portugal e nas colónias eram amplamente noticiadas e comentadas.
As polícias politicas – a do Exército, a OBAN, era a mais temida – demonstravam um interesse especial pelos contactos que mantínhamos com intelectuais que lutavam contra a ditadura, sobretudo professores da Universidade de São Paulo como Florestan Fernandes, Paulo Duarte, Octávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso, este mais tarde presidente do Brasil.
Pelo que me toca, fui detido e interrogado uma vez pela OBAN e um livro meu – «Opções da Revolução na América Latina» – foi apreendido por decisão do Ministro da Justiça. O facto de ser o editorialista principal de «O Estado de São Paulo», o mais influente diário brasileiro na época, contribuiu para que a repressão não me atingisse com maior dureza.
A polícia identificava em mim um comunista português, mas desconhecia que eu era também – com autorização do PCP – membro do Partido Comunista Brasileiro, então na clandestinidade.
Os ataques aos antifascistas do «Portugal Democrático» provinham sobretudo da Embaixada e das organizações por ela tuteladas e da extrema-direita brasileira.
Uma deputada estadual por São Paulo, Conceição Costa Neves (condecorada por Salazar), levou a sua hostilidade ao ponto de se apresentar no «Estado de São Paulo» com um grupo de parlamentares para entregar à direcção uma carta em que se pedia o meu despedimento, como «traidor à pátria». Registo que o director, Júlio de Mesquita Filho, numa atitude digna, se recusou a receber a delegação.
Teve ampla repercussão nacional uma polémica que mantive com Carlos Lacerda, que também me acusou de «traidor», por haver publicado na imprensa argentina e peruana um artigo em que criticava e ridicularizava o seu apelo, após um encontro com o general Spínola, para que o Brasil interviesse militarmente na Guiné-Bissau ao lado do fascismo português.
Uma das modalidades da perseguição política que atingia alguns de nós era a recusa de passaportes comuns pela Embaixada.
No meu caso, o consulado de São Paulo, até ao 25 de Abril, emitia um passaporte do qual constava a expressão «Válido exclusivamente para Portugal», o que na prática significava «válido para a cadeia se desembarcar em Portugal». Fácil é imaginar os problemas resultantes da falta de um passaporte normal.
A discriminação atingia também as nossas famílias. O consulado recusava entregar-me uma simples certidão de nascimento de meus filhos – pedida pelas escolas – sem requerimento ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Como eram também franceses por via materna, mudaram de nacionalidade para superar a exigência fascista.
Era nesta atmosfera persecutória que desenvolvíamos a nossa actividade como combatentes antifascistas.
Editar o «Portugal Democrático», enviá-lo para os núcleos da emigração democrática em diferentes países e encontrar maneira de introduzir em Portugal – sobretudo através da França – algumas dezenas de exemplares eram as nossas tarefas prioritárias.
Em São Paulo, funcionava então num local do centro da cidade uma instituição, o Centro Republicano Português, que reunia elementos da oposição a Salazar de múltiplas tendências e que promovia com frequência actividades sociais. A personalidade mais representativa do Centro era o Comandante João Sarmento Pimental, um veterano da revolução do 5 de Outubro de 1910, muito respeitado pelos anti-salazaristas brasileiros. Antes do 25 de Abril, tal como Victor da Cunha Rego, aderiu ao Partido Socialista de Mário Soares.
Uma iniciativa que contribuiu para aumentar o prestígio do «Portugal Democrático» nos meios políticos brasileiros foi uma entrevista com Jânio Quadros.
O ex presidente do Brasil, ao passar por Lisboa a bordo de um paquete, criticara o colonialismo português. Concluímos no jornal que seria útil explorar o incidente. Jânio recebeu uma delegação nossa e aceitou responder a um questionário. Mas atribuiu tão pouca importância ao assunto que nos pediu para ser o nosso jornal a preparar as perguntas e as suas respostas. E quando nos devolveu o texto não introduziu alterações.
Mais tarde confessou que não tinha avaliado o alcance da entrevista.
Como o nosso objectivo era fazer dela um acontecimento de repercussão nacional, Jânio, na resposta a algumas das questões, não se limitava a condenar o colonialismo; assumia perante grandes problemas internacionais uma posição de esquerda, ostensivamente anti-imperialista, que não era a sua. Aconteceu o que pretendíamos. Entregámos cópias aos jornais e às agências noticiosas. No dia seguinte a entrevista foi manchete em alguns diários que criticaram Jânio Quadros e teve repercussão internacional.
Recordo que ele manifestou a sua gratidão, sublinhando que graças ao «Portugal Democrático» tinham falado mais dele num só dia do que todo o ano anterior.
Outro instrumento de intervenção política que criámos foi uma organização, a Unidade Democrática Portuguesa, que nos permitia desenvolver acções e tomar iniciativas que transcendiam o âmbito de um jornal como o «Portugal Democrático».
O leque dos aderentes era aberto; nela cabiam oposicionistas com formações ideológicas muito diferentes.
Foi muito útil na promoção de sessões de solidariedade e como canal de informação. Editava um boletim mensal com amplo noticiário sobre a guerra colonial e as lutas do povo português. Traduzido em francês, inglês e espanhol, era enviado para dezenas de jornais europeus e latino-americanos.
Na frente da informação a iniciativa mais importante que os exilados antifascistas do Brasil tomaram naqueles tempos foi o envio anual de um Memorial à Assembleia-Geral das Nações Unidas, assinado por representantes das organizações democráticas portuguesas instaladas em seis países do Continente Americano: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Venezuela e Uruguai. O Memorial que abriu a série em 1963 teve como primeiros signatários o general Humberto Delgado e o Prof. Ruy Luiz Gomes, ambos ex candidatos à Presidência de Portugal. Nesse documento eram denunciados com especial ênfase os crimes do colonialismo e pedida à ONU o cumprimento de Resoluções do Conselho de Segurança que exigiam o direito à autodeterminação e independência das colónias portuguesas.
Quando o «The New York Times» e o «Washington Post» publicaram passagens do documento, a repercussão incomodou tanto o fascismo que o Embaixador de Portugal na ONU promoveu uma conferência de imprensa no hotel Waldorf Astoria, em Nova Iorque, na tentativa de desmentir o conteúdo do Memorial.
A publicação no Brasil de livros importantes sobre a luta contra o fascismo e o colonialismo foi um trabalho desenvolvido com êxito pela equipa do «Portugal Democrático» com a colaboração amiga de duas grandes editoras: a Civilização Brasileira e a Brasiliense.
Entre outras obras chamaram a atenção dois livros de denúncia do colonialismo, «A Guerra em Angola», do médico Mário Moutinho de Pádua, e «Angola, Cinco Séculos de Exploração Colonial», de Américo Boavida, dirigente do MPLA. O lançamento de «Rumo à Vitoria» e «A Questão Agrária em Portugal», ambos de Álvaro Cunhal, foi particularmente festejado pelas forças progressistas que se opunham à ditadura brasileira.
Com muita imaginação, e contando com ajudas inestimáveis, conseguimos introduzir em Portugal muitas dezenas de exemplares.
Um acontecimento que obteve ampla repercussão na imprensa brasileira foi o ciclo de Conferências sobre Portugal na Universidade Católica de São Paulo, integrado num Curso de Introdução à Ciência Política.
Perante o interesse despertado pela «transição marcelista», aquela Universidade dirigiu-se à Embaixada de Portugal e ao Centro Republicano Português pedindo-lhes a indicação de nomes de personalidades disponíveis para apresentar comunicações nos diferentes painéis constantes do programa e abertas ao debate sobre o colonialismo e o regime ditatorial de Lisboa.
A Embaixada não somente recusou colaborar como cometeu o erro, através do consulado, de sugerir ao Reitor da Universidade que anulasse o Curso sobre Portugal, argumentando que teria um carácter subversivo, «incompatível com a ideologia da Revolução Brasileira» (assim se auto intitulava a ditadura militar). E foi mais longe: visitou as redacções solicitando que não fizessem a cobertura do acontecimento, gesto que, denunciado, suscitou escândalo.
Os debates, moderados pelo Prof. Florestan Fernandes, uma das figuras mais prestigiadas da intelligentsia brasileira, foi um êxito. Registo que pelos antifascistas portugueses apresentaram comunicações os professores Vitor Ramos e Joaquim Barradas de Carvalho, Augusto Aragão, a estudante Maria Antónia Fiadeiro e eu.
Esses trabalhos foram mais tarde reunidos numa edição especial da Revista «Paz e Terra», publicada em Dezembro de 1969.
Quando ocorreu o 25 de Abril, alguns de nós tomamos a decisão de regressar imediatamente a Portugal.
Na Universidade de São Paulo, amigos brasileiros decidiram promover um Acto público para despedida dos exilados políticos que iam voltar à pátria.
A polícia política recebeu instruções para não proibir a iniciativa. A popularidade da Revolução portuguesa era enorme entre a juventude e o governo do general Medici não queria hostilizar o Movimento das Forças Armadas, o MFA.
Mas o DOPS tudo fez para sabotar a sessão. Horas antes do seu início levou para a sua sede o Professor Paulo Duarte, então com mais de 80 anos, a personalidade que deveria falar em nome da Universidade. Substituímo-lo pelo prof. Soares Amora, genro de Fidelino de Figueiredo e então catedrático de Literatura Portuguesa. O Acto foi presidido por um jovem brasileiro, Sylvio Band, que era então o proprietário «legal» do «Portugal Democrático».
A reitoria tinha cedido para o acto um anfiteatro onde mal caberiam 200 pessoas. Mas ocorreu uma situação não prevista.
Os estudantes compareceram em massa. A sessão teve de se realizar num pátio onde se concentraram mais de 4.000 jovens. E a Revolução Portuguesa e os exilados que ali a representavam foram aclamados numa atmosfera de entusiasmo.
A despedida dos exilados, pelo seu significado, acabou transformada num grande acontecimento político brasileiro.
Isso foi possível graças ao 25 de Abril, a Revolução desejada, pela qual tínhamos vivido e lutado.
É uma brevíssima síntese a que vos apresentei da luta travada no Brasil pelos antifascistas portugueses, quase toda ela nos anos mais duros da ditadura dos generais.
Quando hoje, transcorridas muitas décadas, recordo esses combates pela liberdade do povo português, cumpro um dever prestando comovida homenagem ao colectivo do «Portugal Democrático», jornal formalmente legal, mas produzido por uma organização clandestina. O Conselho de Redacção era formado, com uma excepção, por militantes do Partido Comunista Português. Durante anos, agimos como uma forca de batalha inesquecível. A equipa, de uma solidariedade granítica, tornando real a máxima «todos por um, um por todos», conseguiu fazer da camaradagem amizade. Na luta eles desenvolveram, como homens e revolucionários, as suas melhores potencialidades.
Sou hoje um dos poucos sobreviventes desse maravilhoso colectivo. Ele permanece no meu imaginário como confirmação de que, em circunstâncias excepcionais, o sonho do homem novo se torna quase realidade.

Grenoble, 25 de Abril de 2009

Reproduzido de

Monday, June 08, 2009

"Nota oficiosa" do MND de 11 de Agosto de 1954 [espólio de Corino de Andrade]

Friday, February 06, 2009

"Nota oficiosa" do MND de 11 de Agosto de 1954 sobre os acontecimentos ocorridos em Goa, Damão e Diu (O caso da Índia)

Em 11 de Agosto de 1954, a Comissão Central do Movimento Nacional Democrático torna pública uma "nota oficiosa" da qual resultou a prisão dos signatários, Professor Ruy Luís Gomes, Professor José Morgado, Engenheira Virgínia Moura e Operário Albertino Macedo, e um dos mais duros julgamentos políticos ao longo de 24 sessões. (...)
A transcrição deste histórico documento é feita a partir da publicação feita no Jornal de Notícias de 1 de Agosto de 1974. (1)

Invocando acontecimentos ocorridos em Goa, Damão e Diu, está-se a fomentar no nosso País uma vaga de exaltação belicista, alimentada pelo Governo e seus partidários, que para isso lançam mão de vários meios ao seu dispor: imprensa, rádio, cartazes, concentrações, etc. E até se chegou a afirmar que era necessário criar no País um ambiente de guerra. Além disso, o envio de material de guerra e de forças expedicionárias para o Ultramar aumenta a inquietação e a ansiedade da população portuguesa.
Tudo isto é acompanhado da afirmação constante de que existe unanimidade nacional em torno do Governo do Estado Novo.
No entanto, toda esta pressão sobre a opinião pública, nacional e internacional, surge inteiramente desligada de qualquer preocupação de esclarecimento acerca das condições de vida e das aspirações dos povos do Ultramar e, em especial, dos de Goa, Damão e Diu. Assim de toda esta agitação não se colhem elementos que habilitem a responder às seguintes perguntas:
1) Qual a participação que os povos do Ultramar - povos, e não habitantes escolhidos individualmente - têm na vida pública? Em que medida estão assegurados aos povos do Ultramar os direitos de cidadania e as liberdades fundamentais?
2) Quais as condições de vida das populações ultramarinas, nomeadamente no que respeita à alimentação, habitação, saúde pública, assistência à mãe e à criança, protecção da velhice e na invalidez?
3) Quais as condições de trabalho impostos aos trabalhadores negros de Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, aos trabalhadores de Macau e Timor e aos trabalhadores indianos de Goa, Damão e Diu, no que se refere concretamente a horário de trabalho, salários, número de desempregados e seguros contra acidentes de trabalho? Em que se distingue um trabalhador contratado dum trabalhador escravo em Angola? Como se faz recrutamento dos contratados? O que acontece aos trabalhadores negros que se recusem a ser contratados? Em cada um dos últimos dez anos, quantos trabalhadores negros saíram de Angola e Moçambique à procura de trabalho?
4) Em que medida está assegurado o direito à cultura nos diversos povos do Ultramar, nomeadamente, qual a percentagem de analfabetos em relação ao total da população de Goa, Damão e Diu? Qual o número de escolas oficiais de cada grau de ensino? Qual a percentagem negros e indianos nas respectivas escolas oficiais? A que meios de difusão da cultura têm acesso as populações do Ultramar (possibilidades de edição e colaboração em jornais, revistas, livros, etc.)?
5) Em que territórios do Ultramar existe separação racial, na habitação, na frequência de escolas, no internamento em hospitais, nos transportes, nos centros de diversão e desporto, etc.?
6) Até que ponto as populações ultramarinas participam na administração da justiça? Quais os métodos de investigação policial praticados no Ultramar? Em que regiões se praticam ainda castigos corporais? Que diferença há entre o regime prisional metropolitano e o ultramarino?
7) Quais as bases militares estrangeiras instaladas ou em via de o serem, nos territórios ultramarinos? Como se faz o recrutamento militar no Ultramar? Até que posto, no Exército e na Marinha, pode ascender um negro ou um indiano? Qual o número de oficiais ou técnicos estrangeiros militares instalados no Ultramar?
8) Qual a participação do negro ou do indiano nas grandes empresas do Ultramar? Qual o volume de capitais estrangeiros nessas empresas? Quais as corporações de capital estrangeiro investidos nessas empresas? Quais as corporações de capital estrangeiro, e respectivas áreas de domínio?
9) Quantos presos políticos de Goa, Damão e Diu passaram pelas cadeias do Estado Novo? Quantos foram julgados no Tribunal Plenário de Lisboa e a que penas foram condenados?
Nem agora nem em qualquer outro momento da dominação do Estado Novo foi dada resposta clara a estas perguntas. Mais ainda: a imprensa portuguesa controlada pela censura - que, por sua vez, está directamente subordinada à Presidência do Conselho - não pode analisar com inteira independência e objectividade os problemas do Continente sequer. E, por tudo isto, só pelo que se passa no Continente pode avaliar-se da capacidade política do Estado Novo para solucionar os problemas ultramarinos e, neste momento, os problemas de Goa, Damão e Diu. Ora, é um facto bem conhecido que todos os movimentos populares, sobretudo a partir de 1945, têm reclamado:
- As condições mínimas de honestidade das eleições para deputados e para a Presidência da República (recenseamento honesto, liberdade de propaganda e fiscalização do acto eleitoral);
- Abolição da Censura, da PIDE, dos campos de concentração e dos tribunais plenários de Lisboa e Porto;
- Revogação das medidas de segurança para presos políticos, medidas que permitem, de facto, a prisão perpétua;
- Liberdade de reunião, associação, expressão de pensamento e religião;
- Reintegração dos funcionários públicos, empregados e operários afastados dos seus lugares por serem desafectos do Estado Novo;
- Liberdade de formação e actuação dos partidos políticos.
A insistência nestas reclamações mostra que a supressão das liberdades fundamentais é elemento essencial da orientação política do Estado Novo.
As recentes alterações do Código Penal e a chamada regulamentação do direito de associação (mais de vinte anos depois de publicada a Constituição) são novas armas forjadas precisamente com o objectivo de intensificar a repressão ao exerc'cio das liberdades fundamentais, reduzindo o alcance prático dos direitos consignados na própria Constituição.
E nem mesmo quando o que está em causa é o próprio direito à vida, o Governo do Estado Novo se sente no dever de fornecer uma informação rigorosa dos acontecimentos e dar uma satisfação à opinião pública.
Assim,
- Não foi ainda feito um inquérito público à situação dos presos políticos e, muito especialmente, às circunstâncias em que o tenente Carrajola da G.N.R. matou a camponesa de Baleisão (Beja) CATARINA EUFÉMIA;
- Não foi prestada uma informação objectiva dos acontecimentos ocorridos em S. Tomé no mês de Fevereiro de 1954, em que tantos trabalhadores negros perderam a vida, nem foram dadas quaisquer garantias de que tais acontecimentos se não repetiriam. Entretanto, o então governador tenente-coronel Gorgulho foi louvado pelo Ministério do Exército;
- Nunca foram julgados os responsáveis pelas deportações sem julgamento e pela manutenção das prisões depois de cumpridas as respectivas penas.
A acrescentar a tudo isto, há as prisões constantes de democratas e partidários da Paz. Dessas prisões, também normalmente não é dado qualquer conhecimento ao País, e os jornais nem sequer inserem a reportagem fiel das audiências daqueles que são julgados nos tribunais plenários, os quais constituem uma pequena parte de quantos na realidade passam pelas prisões. Neste momento, encontram-se presos sem julgamento, entre outros: HUMBERTO LOPES, Dr. PEDRO SOARES, ARMÉNIO JORDÃO, JOSÉ GOUVEIA, CARLOS ABOIM INGLÊS, ALBERTO PROENÇA, VIGÊNCIA SANTOS, Drª MARIA LUÍSA SOARES, FERNANDO CIPRIANO, AMADOR, JOAQUIM GOMES.
Apesar da repressão exercida pelo Estado Novo, o Povo Português nunca abdicou nem abdicará dos seus direitos. Por isso mesmo tem lutado e lutará cada vez mais
PELAS LIBERDADES FUNDAMENTAIS
PELA PAZ ENTRE OS POVOS
PELA INDEPENDÊNCIA NACIONAL
É esta luta constante que dá aos democratas o profundo sentimento de que não há polícias políticas, nem tribunais, nem cadeias, nem campos de concentração, nem ameaça de prisão perpétua, nem espancamentos, nem insultos capazes de impedir a marcha do Povo para a sua libertação. O Estado Novo, nos 28 anos do seu domínio, revelou-se impotente para resolver os problemas essenciais na Metrópole, como os da habitação, saúde pública, alimentação, assistência à mãe e à criança, pleno emprego, previdência, etc..
SENDO ESTA A DURA REALIDADE NA METRÓPOLE, O GOVERNO DO ESTADO NOVO NÃO PODE CONVENCER NINGUÉM DE QUE É CAPAZ DE RESOLVER TAIS PROBLEMAS NO ULTRAMAR.
Mais ainda: o carácter antidemocrático do Estado Novo provoca, necessariamente, o descontentamento dos povos que estão sob o seu domínio. No que respeita Goa, Damão e Diu, é até um deputado do Estado Novo, dr. Froilano de Melo, antigo professor da Escola Médica de Goa, que na sessão de 15 de Março de 1949 declara na Assembleia Nacional:
«Uma vaga de ressentimento, de desinteresse e de desânimo apossou-se da alma do povo indo-português»
E mais adiante:
«E, na atmosfera de mágoa, de desânimo e de descrença que invadiu os lares, na Índia cresceu toda uma geração de indo-portugueses que, dominados por esse complexo, ouvindo a cada passo aos seus maiores comparações desvantajosas em confronto com um passado cheio de harmonia e de esperança, cépticos e desinteressados da causa pública, talvez mesmo intimamente revoltado, já não ousam repetir com entusiasmo as loas que os da minha geração entoavam espontaneamente e com tanto orgulho em honra da unidade e fraternidade da cidadania portuguesa»
E como é que este deputado do Estado Novo explica tal descontentamento? Eis a sua proposta:
«Para mim, a cousa básica, fundamental, orgânica do descontentamento que lavra na Índia portuguesa (...) provém do facto da desarmonia de direitos e regalias que as leis actuais exteriorizam desde 1926 quanto aos portugueses da Índia em confronto com os portugueses de Portugal, e tornados hoje mais acentuados em contraste com os que fruem os seus irmãos de sangue fora da fronteira».
Quer dizer: para o deputado do Estado Novo dr. Froilano de Melo, é sobre o Governo do Estado Novo que recai a responsabilidade pelo descontentamento que lavra na Índia:
«De 1930 para cá sofreu novas e variadas evoluções a administração colonial, mas sempre sujeita a normas cada vez mais apertadas, restringindo a intervenção activa do elemento popular em favor do poder central.».
A supressão dos direitos e liberdades fundamentais está de tal modo integrada na orientação do Estado Novo, que mesmo neste momento de crise polarizou as suas preocupações legislativas num decreto - decreto n.° 39 749 de 9 de Agosto de 1954 - que reforça os poderes da PIDE e estende a sua acção repressiva a todos os povos do Ultramar.
De facto, SÓ UM GOVERNO DEMOCRÁTICO PODE RESOLVER OS PROBLEMAS NACIONAIS ASSEGURANDO OS DIREITOS, GARANTIAS E LIBERDADES FUNDAMENTAIS DE TODOS CIDADÃOS, QUER NA METRÓPOLE, QUER NO ULTRAMAR.
E foi precisamente por ter bem presente este princípio que a IX Assembleia de Delegados do Movimento Nacional Democrático, reunida em Julho de 1953, tomou entre outras as seguintes deliberações:
«... 5. Condenar como um ultraje ao sentimento nacional a ideia (...) de que a implantação de um regime democrático em Portugal resulte de uma acção de governos estrangeiros contra o governo do Estado Novo;
6. Combater toda a espécie de intervencionismo estrangeiro e de «putchismo» interno como formas, dissimuladas ou não, de impedir que seja só o povo português a decidir dos seus destinos;
7. Proclamar que a implantação da Democracia em Portugal só poderá ser - e SERÁ - o resultado vitorioso da acção dos democratas portugueses em íntima ligação com o povo;
8. Lutar firmemente por uma SOLUÇÃO NACIONAL do problema político português.»
Ora uma solução nacional do problema político português exige a DEFESA DA PAZ ENTRE OS POVOS. O Movimento Nacional Democrático sempre tem proclamado a necessidade de salvaguardar a paz, e é por actos em favor da paz que muitos democratas, incluindo a própria direcção do movimento, presos, processados e condenados pelo Estado Novo.
Os últimos acontecimentos da Índia vieram demonstrar que todo o povo português está directamente interessado na defesa da paz. E ainda recentemente a Conferência de Genebra provou de maneira insofismável, que todos os diferendos entre estados se podem resolver pela negociação.
A NEGOCIAÇÃO APRESENTA-SE, PORTANTO, COMO O CAMINHO PARA A PAZ.
Ora a Constituição Política afirma no seu art.° 4° que cumpre à Nação portuguesa «...cooperar com outros estados na preparação e adopção de soluções que interessem à Paz entre os povos e ao progresso da Humanidade».
O valor da negociação como único meio de evitar a guerra e de defender a independência nacional surge portanto como uma realidade. E é precisamente essa realidade que determina a posição do Movimento Nacional Democrático perante os acontecimentos de Goa, Damão e Diu, e lhes impõe como verdadeiro imperativo de acção patriótica, reclamar:
1. Que o diferendo com a União Indiana seja resolvido por negociações, tendo em vista as legitimas aspirações dos povos de Goa, Damão e Diu.
2. Que cesse imediatamente toda a propaganda de guerra, e seja garantida ao Povo português a possibilidade de discutir as medidas a tomar para salvaguarda da independência nacional e estabelecimento de boas relações com todos os povos.
3. Que o Presidente da República use os poderes que a Constituição lhe confere para formar um Governo que dê garantias de praticar uma política de paz e de respeitar os direitos fundamentais do cidadão.
(1) Tudo transcrito de:
Paulo Morgado, “A Poesia está na Rua” com o Professor Ruy Luís Gomes e os seus Companheiros. Campo das Letras, Porto, 2009 (em edição).
Sobre o caso da Índia, ver:
Na morte do Prof. Ruy Luís Gomes - ABRIL VENCERÁ!, por Virgínia Moura e José Morgado (aqui pode ser lida grande parte da "nota oficiosa" do MND)

Friday, November 14, 2008

O exemplo de Bento de Jesus Caraça 23 anos depois do 25 de Abril

O exemplo de Bento de Jesus Caraça 23 anos depois do 25 de Abril
Álvaro Cunhal
na Universidade Popular de Setúbal
Setúbal, 18 de Abril de 1997
O tema proposto para este colóquio é «o exemplo de Bento de Jesus Caraça e a sua actualidade». É um tema aliciante:
- para melhor conhecimento desse insigne português e da época em que viveu;
- pelo estímulo que representa para aqueles que querem um melhor futuro para o nosso povo e a nossa pátria.
Abordarei pois alguns aspectos fundamentais do exemplo de Bento de Jesus Caraça.
Antes de mais é de sublinhar que Bento de Jesus Caraça deu um exemplo de coerência do pensamento e da acção.
Não se limitou a pensar que a cultura é um dos principais valores da sociedade e que o povo tem direito à cultura. Pensando assim, tornou-se um activo difusor dos conhecimentos e ideias, um activista da democratização da cultura.
Não se limitou a pensar que a ditadura fascista era um regime opressor que reprimia com violência as liberdades e direitos fundamentais dos cidadãos. Pensando assim tornou-se um activo militante da luta antifascista.
Não se limitou a pensar que a guerra é um crime contra a humanidade. Pensando assim tornou-se um activo militante da luta pela paz.
Não se limitou a pensar que o sistema capitalista é um sistema de exploração que necessita de ser ultrapassado com a construção de uma sociedade nova. Pensando assim, tornou-se um militante do Partido Comunista.
Na actual situação nacional e mundial, quando proliferam a mentira, a falsidade, o oportunismo, este exemplo de coerência tem inteira actualidade como um valor na conduta dos seres humanos, de que a sociedade prementemente necessita.
Bento de Jesus Caraça deu o exemplo de um homem da cultura, no mais profundo significado desta palavra e a sua intervenção social constituiu uma contribuição efectiva para a democratização cultural.
Combatia o monopólio da cultura pelas classes dominantes e por elites, e considerava que o acesso do povo à fruição e à criação culturais é um elemento imprenscindível de uma sociedade e de regime verdadeiramente democráticos.
Professor universitário revelou particular talento na difusão de conhecimentos científicos e estimulou a formação de valiosos quadros de cientistas.
Foi organizador e dinamizador das Universidades Populares, como é o caso que a Universidade Popular de Setúbal fez lembrar ao re­ferir que foi Bento de Jesus Caraça que a fundou em 1931 e ao editar em 1996 a intervenção de Bento de Jesus Caraça intitulada «As Universidades Populares e a Cultura» feita em Setúbal nesse mesmo ano de 1931.
Em Lisboa, na Universidade Popular orientou e promoveu importante trabalho cultural, no qual se tornaram célebres as suas conferências bem como de outros destacados antifascistas.
Orientou e impulsionou ainda uma notável série editorial (Colecção Cosmos).
Na situação presente, em que a cultura é submetida e submergida por orientações e realizações determinadas por interesses das forças do poder do capital, o exemplo de Bento de Jesus Caraça tem inteira actualidade e é justamente de lembrar pela notável plêiade de inte­lectuais portugueses que na complexa situação actual dão exemplos dignos do exemplo de Bento de Jesus Caraça.
Porque este colóquio tem lugar na Universidade Popular de Setúbal, que ele próprio fundou em 1931, comecei por referir, o exemplo de Bento de Jesus de Caraça na área cultural.
É porém de sublinhar que o seu exemplo na área cultural não só é inseparável, como decorria directamente das suas opções ideo­lógicas e políticas.
Assim, Bento de Jesus Caraça deu o exemplo de um firme e dedicado militante antifascista.
O seu nome está ligado à resistência antifascista.
Particularmente significativa foi a sua participação dirigente na criação e desenvolvimento clandestino nos anos 1943/45 do Movi­mento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e de 1945 (fim da 2.a Guerra Mundial, com a derrota do fascismo e a manobra pseudo-democrática de Salazar) até à sua morte em 1948, no Movi­mento de Unidade Democrática (MUD) que, ultrapassando a bar­reira da legalidade fascista, se impôs durante alguns anos à luz do dia como expressão legal e semi-legal organizada da resistência antifascista.
Num momento em que no mundo renascem partidos e influên­cias fascistas e neo-fascistas, num momento em que em Portugal reapa­recem responsáveis da ditadura salazarista e marcelista pretendendo fazer esquecer os crimes da ditadura e outros organizam e difundem projectos de extrema-direita sob a capa demagógica do populismo, num momento em que o governo PS e PSD preparam uma revisão da Constituição e novas leis eleitorais que, a serem realizadas, repre­sentariam a completa subversão do regime democrático, — o exem­plo de Bento de Jesus Caraça como intelectual activo e dedicado militante democrático antifascista tem inteira actualidade.
Na vida política, social e cultural, Bento de Jesus Caraça foi mais longe. Deu exemplo de um intelectual companheiro de luta da classe operária, da luta em defesa dos seus interesses de classe, dos seus ideais de transformação revolucionária da sociedade.
Considerava convictamente que, além da libertação da ditadura e da conquista da liberdade, os grandes problemas da humanidade não podem ser resolvidos e a exploração, a opressão, as grandes desigualdades e injustiças sociais não podem ser superadas no quadro do sistema capitalista. Bento de Jesus Caraça foi comunista, membro do Partido Comunista Português.
Como militante comunista fez parte do Conselho Nacional de Unidade Antifascista (órgão supremo do MUNAF) e da Comissão Central do MUD.
Pela sua influência foi um dos obreiros desses grandes movimentos unitários. Sabia aliar o respeito pelas opiniões divergentes e pela busca de acordos unitários com a firmeza da opção política comunista que fizera.
Quando assistimos em Portugal a toda uma campanha de forças e elementos reaccionários, que copiando o que já Salazar dizia, se proclamam eles, reaccionários, «os verdadeiros democratas» e acusam os comunistas de totalitários inimigos da demo­cracia, quando se desenvolve uma gigantesca campanha de pressão ideológica, discriminações sociais, falsificações históricas, contra o PCP; - o exemplo de Bento de Jesus Caraça, intelectual comunista obreiro da unidade democrática, intimamente ligado à luta e ideias dos trabalhadores e do seu partido, tem particular actualidade.
E para terminar,
Bento de Jesus Caraça deu um exemplo de sinceridade, de simplicidade e modéstia na sua intervenção social. Nos diversos aspectos da sua actividade (política, social, cultural) os valores éticos aparecem sempre em relevo.
Foi um protagonista que não protagonizava. Um ser humano que convivia com outros seres humanos num plano de respeito e compreensão. Um homem de muito saber que convivia com os jovens como se jovem fosse.
Quando hoje impera a política-espectáculo, a impunidade da mentira e da falsidade, o carreirismo, a corrida à ribalta daqueles que crêem que a exibição e a máscara é que dão prestígio e fama, o exemplo de simplicidade e modéstia de Bento de Jesus Caraça tem a actualidade de uma chamada de atenção, vinda da memória do tempo, de um cidadão que respeita os outros cidadãos, de um verdadeiro amigo, de um camarada.
A Universidade Popular de Setúbal merece bem os apoios necessários para que o seu futuro não mais atravesse as dificuldades e obstáculos que defrontou no passado.
A actividade da Universidade Popular de Setúbal é um estímulo para que outras e novas Universidades Populares sejam criadas e se desenvolvam com os grandes objectivos culturais, democráticos e humanistas que há já mais de 60 anos Bento de Jesus Caraça traçou.

Bento Caraça - insigne intelectual comunista

Fotografia digitalizada por Jorge Rezende
Esta fotografia mostra Álvaro Cunhal num passeio no Tejo na época em que se relacionou mais estreitamente com Bento de Jesus Caraça
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Bento Caraça - insigne intelectual comunista
(Extractos da Entrevista de Álvaro Cunhal ao Avante!)
Conheci-o nos anos 30. Primeiro na Universidade Popular Portuguesa onde assisti a várias das suas conferências e tive ocasião de falar com ele no quadro de um relacionamento com outros conferencistas. Depois ainda nessa época, em encontros fortuitos. Eu era jovem, mas já então era militante do PCP, da direcção da Juventude Comunista e com intensa actividade no movimento associativo dos estudantes. Apenas para melhor se compreender o meu relacionamento com Bento de Jesus Caraça, lembro que em 1935 passei à clandestinidade e fui a Moscovo, e em 1937 fui preso e estive cerca de um ano na prisão. A relação com B. Caraça teve logo à partida presentes dois pressupostos. Eu via nele um intelectual conhecido e de grande valor considerado como comunista embora então não soubesse se era ou não membro do Partido. E ele via em mim um jovem conhecido como militante comunista já então com certa responsabilidade.
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(A Universidade Popular), com a influência qualificada de B. Caraça, tratou-se de uma actividade cultural de grande projecção. O grupo de conferencistas incluía pessoas de valor como Dias Amado, Mário de Castro. Também de meu pai, Avelino Cunhal. Eram pessoas com diferenciadas personalidades individuais mas identificadas no fundamental das suas opções socio-políticas. B. Caraça, cientista, professor, pedagogo, homem de cultura, pronunciava-se contra a cultura como monopólio de uma elite. Explicitava que um sábio pode não ser um homem culto e um homem culto pode não ser sábio. A cultura deveria ser um valor e um bem do povo. Daí a defesa da democratização da cultura como elemento de liberdade do ser humano e da democracia política.
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A cultura exige conhecimento e o povo deve ter acesso à aquisição do conhecimento. É de lembrar a ideia sublinhada por B. Caraça de que, para tal, o problema económico é aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. A actividade cultural de B. Caraça, como professor, como conferencista, como ensaísta, como orientador de actividades editoriais, é inseparável das suas concepções acerca da sociedade existente, da cultura, da democracia, dos valores político-éticos, do ideal de uma transformação profunda da sociedade de assumido conteúdo humanista.
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Ele foi o grande orientador, animador e dinamizador de uma valiosa série de obras editadas pela Cosmos. Tive ocasião de falar numerosas vezes com ele a este respeito. Posso mesmo dar um testemunho directo. Propôs-me que escrevesse um volume sobre "A descoberta da Terra", ou seja o avanço histórico do conhecimento pelo ser humano do nosso planeta. Ainda há dias, arrumando papéis, encontrei muitas centenas, para não dizer milhares, de folhas com notas de leitura, apontamentos, capítulos já redigidos, ilustrações para esse trabalho. Não teve seguimento porque em 1941, pouco depois de libertado após uma segunda prisão, passei de novo à clandestinidade.
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Ele dava valor ao valor dos jovens. Tinha a sua própria experiência: professor universitário aos 25 anos, professor catedrático antes dos 30. Criava nos alunos o gosto pelo estudo, pela ciência e pela cultura, estabelecendo ao mesmo tempo com muitos deles um relacionamento amistoso, de convívio e de liberdades. Ele era e gostava de afirmar-se um homem simples. Andava a pé na cidade em cabelo quando na sua época praticamente toda a gente usava chapéu. Vestia a sua samarra alentejana. Falava com os mais novos e os mais novos falavam com ele como se tivessem todos a mesma idade. Sentia-se bem com os jovens e os jovens sentiam-se bem convivendo com ele. No estudo, em iniciativas culturais, em conversas sobre os mais variados temas, em passeios, em fins de semana passados na praia. De sublinhar que nesses colectivos estavam sempre presentes, surgindo com uma espontaneidade correspondente ao pensamento e ao sentir da cada qual, os problemas da época.
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O sentido ético e humanista do seu pensamento traduzia-se, entre muitas outras coisas, pela valorização da coragem na afirmação da verdade científica (Galileu Galilei) ou das grandes figuras da Índia como Tagore e Gandi. Tinha particular preferência literária por Romain Rolland e aconselhava a muitos jovens a leitura de "Jean-Christophe". Não menosprezava porém a influência política directa. Numa época em que a censura à imprensa e a proibição da importação de publicações comunistas, ele conseguia receber e facilitava a leitura aos jovens de Le Monde, semanário dos conhecidos intelectuais comunistas franceses Henri Barbusse e Romain Rolland, intelectuais aos quais estava também muito directamente ligado como responsável e animador em Portugal do Movimento pela Paz Amsterdam-Pleyel dirigido por esses dois intelectuais franceses.
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O relacionamento que acabo de referir com B. Caraça tinha como adquirido que B. Caraça era comunista. Mas nas condições de clandestinidade a organização e os contactos no Partido eram compartimentados e nenhum membro do Partido se afirmava como tal, a não ser na sua ligação orgânica. De mim para mim, tinha por certo que B. Caraça era membro do Partido, mas não o poderia afirmar. O relacionamento partidário directo deu-se em 1943. Em 1941-42, época da reorganização do PCP, eu tinha de novo passado à clandestinidade e sido enviado como funcionário do Partido para o Norte do País. Em Outubro de 1942, tendo sido presos vários dirigentes do Partido, fui chamado de novo para Lisboa, a fim de integrar o Secretariado desfalcado com a prisão de Júlio Fogaça. Ora era precisamente Júlio Fogaça que assegurava na época a ligação partidária com B. Caraça. Fui eu encarregado de restabelece-la, o que sucedeu em 1943.
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No mundo então envolvido na 2.ª Guerra Mundial, 1943 foi um ano marcado em Portugal pelo impetuoso ascenso do movimento operário, a afirmação do PCP como um grande partido nacional e o empreendimento pelo Partido da unidade antifascista na luta pela liberdade e a democracia. B. Caraça deu nessa conjuntura uma contribuição em alguns aspectos determinante para alcançarmos com êxito tal objectivo.
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Lembro que o III Congresso do PCP (primeiro realizado na clandestinidade), noticiado no Avante! de Novembro de 1943, anunciava a criação do Movimento de Unidade Nacional Antifascista, e o Avante! de Janeiro de 1944 noticiava a formação do Conselho Nacional, orgão supremo do MUNAF.O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio.
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O MUD (Movimento de Unidade Democrática) foi formado e desenvolveu-se como uma realização e expressão do MUNAF, aparecendo à luz do dia como um novo movimento e invocando o direito à legalidade. (...) De lembrar a Comissão Central do MUD (1946), que é de interesse citar, que contou na sua composição com Azevedo Gomes, Bento Caraça, Hélder Ribeiro, Maria Isabel Aboim Inglês, Fernando Mayer Garção, Manuel Mendes, Lobo Vilela, Alberto Dias, Manuel Tito de Morais, Demétrio Duarte, Luciano Serrão de Moura e Mário Soares. O MUD, assim como o MUD Juvenil, formado no seu desenvolvimento, foi perseguido e reprimido. B. Caraça foi demitido de professor, na vaga de demissões que atingiu também outros destacados antifascistas, alguns dos quais comunistas.
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Essa atitude (de apagar a ligação de Bento Caraça ao PCP) insere-se na gigantesca operação de falsificação da história a que assistimos actualmente. Escrevem-se volumes, artigos e conferências e pronunciam-se discursos e declarações tentanto branquear a ditadura, a sua natureza fascista, a sua natureza de classe, e todos os seus crimes. Falseia-se a história da heróica resistência antifascista, da luta pela liberdade e a democracia. Insulta-se a revolução de Abril, que a reacção acusa de ter sido causadora da situação desastrosa actual a que nos conduziu a política e governos de direita. Falseia-se a história do levantamento militar, do levantamento popular, das realizações e conquistas da revolução democrática. Falseia-se a história das actividades e do processo contra-revolucionário que conduziu à situação de desastre nacional em que actualmente o país se encontra. E em toda esta operação de falsificação da história, é linha de força o apagamento, o silêncio ou a grosseira deturpação e a calúnia contra o PCP. Aos falsificadores da história não convém que o povo português saiba que eram comunistas homens a quem tanto devem o povo, o país, a cultura, a conquista da liberdade e da democracia.
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Copiado de:
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Tuesday, August 12, 2008

O testemunho de António Dias Lourenço em 2001 aquando do centenário de Bento de Jesus Caraça


Que tipo de personalidade era Bento de Jesus Caraça?
Estamos hoje a comemorar o centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça. É o centenário de uma grande figura nacional - da ciência, da cultura, da política. Um dos percursores mais destacados do movimento de resistência que nasceu como resposta à ditadura fascista. Como intelectual avançado, progressista, comunista, teve uma acção muito importante, num tempo em que a ditadura fascista se instalou no nosso país. Por tudo isso é uma figura que justamente merece a homenagem, não só do mundo culto português, mas também de todos aqueles que estão interessados no avanço da liberdade, da democracia, do progresso social no nosso país. Há entretanto uma dimensão da sua personalidade que me parece particularmente importante destacar. Bento de Jesus Caraça foi um grande pedagogo. Deu uma contribuição extraordinária à pedagogia virada para a cultura popular. Procurou sempre que a sua cultura científica fosse como que um degrau para aqueles que não tinham acesso ao ensino superior, e até ao ensino médio, ou mesmo a qualquer forma de ensino. E assim deu uma contribuição impar para elevação cultural dos operários, dos trabalhadores, no seu esforço de autodidactas. Sendo filho de camponeses, camponeses alentejanos, da zona do latifúndio, da zona do Redondo, onde se situava a parte mais concentrada do latifundismo, sempre teve orgulho de afirmar as suas origens de camponês, as suas origens de classe. Em 31/32, já então como professor universitário, Bento de Jesus Caraça começa a desenvolver uma actividade múltipla, ligada também ao movimento operário de então.
Que actividade desenvolve, nessa altura, em ligação com o movimento operário?
Já como professor, é convidado por Bento Gonçalves para dar aulas em cursos de aperfeiçoamento. Eram cursos organizados pelo movimento sindical, antes da fascização dos sindicatos, numa altura em que a ditadura fascista já tinha triunfado e, ao movimento sindical, se colocavam tarefas de sobrevivência. O fascismo iria depois pôr fim, com a Constituição de 33, aos sindicatos independentes. Em 1 de Janeiro de 34, os velhos sindicatos acabaram. Só podiam continuar como sindicatos nacionais, riscando do seu estatuto a luta de classes. É nesta fase difícil que os sindicatos apostam no desenvolvimento de uma certa acção cultural. Era uma forma de encontrar terrenos de encontro, de debate, de desenvolvimento cultural. Neste início dos anos 30, um dos grandes sindicatos da classe operária portuguesa era o dos arsenalistas da Marinha, em Lisboa, em frente da Câmara. Este sindicato teve um papel muito importante na tomada de consciência do movimento operário. Bento Gonçalves, como torneiro do Arsenal da Marinha, participava activamente no trabalho desenvolvido por este sindicato. É em ligação com este trabalho que Bento Gonçalves entra em contacto com o professor Bento de Jesus Caraça e o convida a dar lições para os cursos de aperfeiçoamento.
Em que consistiam esses cursos de aperfeiçoamento?
A experiência que tenho é no sindicato de Vila Franca. O nosso curso de aperfeiçoamento o que era? Ensinavam-se disciplinas como matemática, francês, gramática, português. Eu até era professor de esperanto... O objectivo era também criar uma base de atracção, sobretudo para os trabalhadores jovens, mulheres e homens. Elevar a consciência política dos trabalhadores dessa época. Por exemplo, quando se dava filosofia, falava-se em Marx, em Lénine, nas grandes figuras do movimento operário, nas teorias revolucionárias da época, na história revolucionária do mundo. Tentava-se criar uma base de cultura, política também, filosófica, com os trabalhadores que participavam nesses cursos de aperfeiçoamento. Estava-se no início dos anos 30 e importa não esquecer que é nessa altura que se inicia a feroz repressão fascista.É para um leccionar num destes cursos de aperfeiçoamento, do sindicato dos arsenalistas da Marinha, que Bento Gonçalves convida Bento de Jesus Caraça. E é então, e através de Bento Gonçalves, que se cria a base de relação política de Bento de Jesus Caraça com o PCP. Eu viria a conhecê-lo mais tarde. Por feliz iniciativa do meu pai, presidente do Sindicato de Vila Franca, e que sempre teve a preocupação de interessar os filhos pela cultura e pela política, vim para Lisboa, frequentar o curso industrial. Comecei então a tomar contacto com a juventude comunista. E é esse contacto que me leva depois a matricular-me na Universidade Popular, então muito conhecida entre os jovens operários da região de Lisboa. Bento de Jesus Caraça era um dos professores da Universidade, com outras destacadas figuras da cultura portuguesa. Mais tarde ascendeu à direcção da Universidade Popular.E as lições como eram? Eram na base de uma intervenção do mestre, para abrir ao debate. Havia lá professores como Agostinho da Silva, Diogo de Macedo, Barbosa de Magalhães. Em 42/43, a Universidade Popular foi encerrada pelo fascismo. Mas entretanto muito trabalho tinha sido feito.Ele foi meu professor de matemática. Sabe-se como os jovens estudantes em geral têm horror à matemática. Então como hoje. Mas o professor Bento de Jesus Caraça sabia ensinar os alunos a terem amor à matemática, a compreenderem a sua importância como instrumento para uma rápida compreensão e intervenção nos problemas da vida. Ensinava a matemática começando pelas coisas mais atraentes para os alunos. Coisas que lhes dissessem algo. Foi um grande pedagogo.
Cursos de aperfeiçoamento. Universidade Popular. No fundo, estamos a falar também de formas de resistência ao fascismo. Algumas das muitas em que Bento Caraça participou. Queres referir outros exemplos?
Há muitos outros exemplos. A participação no jornal "O Diabo". Os passeios no Tejo.Nós, os jovens do movimento progressista, do movimento comunista da época, apostávamos então em criar uma base de intervenção na vida cultural e política. Foram-se criando núcleos e é nessa base que se organizam os passeios no Tejo, de barco, em que participavam, em média, 30 a 40 pessoas, intelectuais, trabalhadores como eu, e outros. Bento de Jesus Caraça estava presente em todas estas iniciativas. Estes passeios de barco, que tiveram início por volta de 1933, foram-se organizando até 41. Reuníamos ali numa zona arborizada perto de Azambuja. E aí fazíamos o piquenique - um pretexto para o convívio e o debate. Participavam também esperantistas. E jovens de outras organizações. Havia, por exemplo, os Naturistas - que resolveram avançar com um movimento naturista que o fascismo não se atrevia a fechar.Chegámos a fazer, em Vila Franca, grandes convívios, com cerca de 300 participantes, em particular jovens intelectuais ou com preocupações culturais. Este período corresponde a uma fase em que, face às manobras de Salazar, o movimento democrático, principalmente com a actividade mais dinâmica dos comunistas, tenta organizar-se no sentido de arrancar as liberdades mínimas. De aproveitar as mínimas possibilidades legais - da legalidade colecte de forças do fascismo. O que não era nada fácil, com a repressão. E com a censura.
Já que estamos a falar dos muitos obstáculos que então era preciso ultrapassar, queres falar um pouco dessa grande barreira que era a censura?
Todas as formas de actuação e resistência anti-fascista tinham que passar várias barreira - a barreira policial e a barreira da censura. Como vencer a intervenção da censura, que era feroz na época? Tínhamos que encontrar as formas de vencer esta barreira. De fazer passar a mensagem. Bento de Jesus Caraça e toda a nossa intelectualidade mais destacada teve que enfrentar essa outra arma poderosa do fascismo, que era a censura. E que era um obstáculo a que pudesse exercer um papel fundamental no debate de ideias, na cultura. Havia jornais que eram impedidos de sair sem alterarem um ou outro parágrafo. O lápis azul da censura era um inimigo terrível, na difusão das ideias, da cultura, da informação. Havia mesmo comissões distritais de censura, comissões para o teatro, comissões para a imprensa, etc. Em termos literários, a acção da censura é impressionante. Foram apreendidos três mil e trezentos e cinco livros nacionais e estrangeiros (trezentos e vinte e dois portugueses). Escritores de uma grande projecção tiveram dezenas de livros proibidos e apreendidos. Oito jornais estrangeiros estavam impedidos de entrar em Portugal. Um dos atingidos, de entre as publicações nacionais, foi o jornal "República", que teve um papel muito importante na informação na época.
E como é que se conseguia, de alguma forma, tornar essa situação?
Com a participação em publicações como "O Diabo", por exemplo. "O Diabo" era um jornal anti-fascista, criado em 34. Teve directores como Quintanilha, Ferreira de Castro. Foi entretanto o seu administrador, o Horácio Cunha, que alargou o âmbito de acção desta publicação. Era um homem que queria abrir portas. E abriu as portas ao jovens. E os jovens entraram. Entre eles Álvaro Cunhal. Bento de Jesus Caraça foi um dos grandes colaboradores de "O Diabo". Convivia com isto tudo. E estes jovens de "O Diabo" - eram o diabo em figura e gente... Nós procurávamos penetrar em todos os terrenos em que era possível intervir, debater os grandes problemas da época. Fui colaborador de "O Diabo", entre grandes nomes da intelectualidade da altura. E costumo dizer que sou "um pigmeu entre gigantes".Não esquecer nunca que esta foi a época do triunfo do nazismo, do triunfo da República em Espanha, do triunfo da Frente Popular em Espanha e França. O começo e o fim da guerra civil espanhola. É um período extremamente agitado da vida mundial. Que se reflectia muito profundamente em Portugal. Como se compreende era uma época de acesas polémicas. Este é o pano de fundo em que Bento de Jesus Caraça virá a assumir uma outra grande realização - a colecção "Cosmos".
Como surgiu a ideia da colecção "Cosmos"?
Nesta época, de grande repressão, os presos políticos iam directamente para Angra do Heroísmo.. De Angra iam depois para o Tarrafal uns, outros ficavam lá, outros regressavam. Mas Angra era, em geral, o porto de chegada dos presos políticos que iam deportados. Ora bem, um dos presos políticos deportados foi o Manuel Rodrigues, que era comunista, e viria a ser o principal detentor do capital inicial da editora "Cosmos". Foi ele mesmo que me contou esta história.Em Angra, Manuel Rodrigues encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: "Ó Bento - eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira... Tens alguma ideia da utilidade possam ir a ter?". E o Bento Gonçalves respondeu: "Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão - cultural e revolucionária. E olha - a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele - dizes que vais da minha parte - e pões-lhe esse problema". Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção. Foi este o ponto de partida para a criação da "Cosmos".Qual era o objectivo da "Cosmos"? Era ser uma editora cultural, com caracter enciclopédico. O que bento de Jesus Caraça concebeu foi uma enciclopédia virada para a cultura popular. A colecção englobava a cultura nas suas diversas expressões, com a edição de livros de autores estrangeiros e portugueses, livros que focassem de uma forma mais directa os diferentes sectores de conhecimento, da actividade cultural, científica. Todos os 129 volumes publicados pela Cosmos - um milhão de exemplares - se integram nesta perspectiva. A "Cosmos" foi uma outra grande criação desta personalidade multifacetada que era Bento de Jesus Caraça.
Que outras facetas da sua personalidade gostarias de realçar?
Penso que há uma parte da personalidade de Bento Caraça que não está a ter o necessário relevo. Claro que merece todo o relevo o papel que ele teve na vida cultural e científica. Mas penso que a forma como se tem vindo a falar da sua actividade democrática, tem sido um pouco limitada. E essa actividade teve uma expressão muito vasta. O nome de Bento de Jesus Caraça está ligado a toda a actividade antifascista e democrática desenvolvida na época. Nomeadamente quando, com o fim da guerra e a derrota do nazismo, Salazar se vê obrigado a manobrar, a designar o fascismo português "democracia orgânica", e o movimento democrático tenta afirmar-se, aparecer à luz do dia, participar na vida política.Bento de Jesus Caraça destaca-se desde logo nesta acção do movimento democrático, que então tentava forçar formas de acção mais abertas para poder avançar. Na análise dos acontecimentos desta época é preciso ter sempre presente que não era possível desenvolver uma actividade política contra o fascismo, sem ter estruturas clandestinas, ilegais. Quer dizer - todos esses movimentos legais que apareceram na época tiveram, na sua criação e dinamização, na sua dinâmica até, a acção dos movimentos que estavam na clandestinidade. Em particular do Partido Comunista Português, da juventude comunista. Em 1943 é criado um organismo clandestino, com uma grande força no movimento democrático em Portugal - o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista - o MUNAF. Este movimento englobou e trouxe ao seu seio os democratas mais combativos, aqueles que se dispunham mais a assumir o risco da acção política na época. Principalmente comunistas. Este movimento era encabeçado pelo Conselho de Unidade Nacional, dirigido pelo general Norton de Matos, e era constituído por núcleos de anti-fascistas destacados, combativos. O Bento de Jesus Caraça pertenceu ao Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista. Um facto que tem sido um pouco apagado.. O Conselho de Unidade Nacional Anti-Fascista vivia secretamente, com rígidas formas de secretismo.E naturalmente cada um só sabia aquilo de que precisava de saber. Por isso mesmo, muitos não sabiam que o Bento de Jesus Caraça, como outros, era membro do PCP, embora não estivesse no Conselho como membro do PCP. Mário Soares, cujo liberalismo relativamente à cronologia e verdade da história é conhecida, veio nestes dias à televisão pôr em causa a qualidade de comunista de Bento de Jesus Caraça. Mas a verdade é que Bento Caraça foi militante do PCP. Ao Conselho, o Bento de Jesus Caraça deu uma contribuição muito grande, que muitos poucos sabem. Foi ele quem elaborou o projecto de programa para o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista. Que naturalmente foi depois submetido à discussão no Conselho, em que houve opiniões diversas e o programa saiu com a recolha de todas essas opiniões. Mas Bento de Jesus Caraça teve a confiança de todos para fazer um documento destes.
E das suas características humanas, queres dizer alguma coisa, contar algum episódio que tenhas vivido com ele?
Aqui vai um episódio, que me parece de todo o interesse. Numa reunião do Conselho Nacional, estavam presentes o Dr. Nuno Simões, que era advogado de Lisboa, e um médico do Porto, o Dr. Veiga Pires. Como democratas, eles eram muito amigos os dois. A certa altura o Nuno Simões, que era assim "meia bola e força", faz considerações desprimorosas para o povo do Porto. E o Veiga Pires interveio muito chocado e diz que ali está a ser insultado "o heróico povo do Porto". Começam a discutir os dois e desafiam-se para a pancada, quando acabasse a reunião. Entretanto a reunião teve um intervalo para o almoço e eu agarrei o professor Azevedo Gomes e o Bento de Jesus Caraça e disse-lhes: "Meus amigos, não devemos deixar que estes dois homens saiam daqui inimigos". Eles foram falar-lhes e conseguiram. Saíram dali amigos. Bento de Jesus Caraça tinha essa grande outra particularidade - a capacidade de congregar pessoas de opiniões diferentes, um grande poder de ganhar para uma ideia comum os que tinham ideias diferentes entre eles. Era um homem com uma grande abertura. Um grande prestígio. E uma forma de falar politicamente elevada. Este caso é significativo também do espírito de Bento de Jesus Caraça.
Bento de Jesus Caraça foi, como é conhecido, alvo da repressão fascista. De perseguições que iriam mesmo acelerar a sua morte. Acompanhaste este processo?
Sim. A certa altura desencadeia-se a repressão fascista contra os intelectuais, contra o professorado, até pelo seu apoio às lutas estudantis. E naturalmente pela sua participação no movimento antifascista. Esta onda repressiva corresponde também a uma fase em que - com base no trabalho dos movimentos antifascistas ilegais - se tinha conseguido organizar um movimento legal - o MUD. É em 1945 que é constituído o MUD e o MUD juvenil. E começam a ser criadas outras organizações - o movimento para a paz, o movimento das mulheres. Bento de Jesus Caraça, foi um dos dirigentes do MUD, um dos seus percursores.E, nesta qualidade, começa então a ter que dar a cara, pelo que cai sob a alçada da polícia. A primeira grande ofensiva é a de 46, em que um grande núcleo de professores, dos mais destacados do ensino universitário, são presos e, grande parte deles, expulsos do ensino. Como foi o caso de Bento de Jesus Caraça. Já então ele estava gravemente doente. E a prisão foi um dos factores que mais contribuiu para a sua morte.Tive contacto com ele praticamente até ao último minuto da sua vida. Fui a sua casa, em Campo de Ourique, no próprio dia da sua morte. Entro e vejo a casa cheia de gente consternada. Ele estava na agonia. Como eu estava então na clandestinidade, tive que me vir embora.
Em síntese, que te parece mais importante dizer do que foi a vida e a personalidade de Bento de Jesus Caraça?
Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável. Um homem de um grande saber e de uma grande modéstia. E, por outro lado, com um grande sentido humanístico. Ele era de uma humanismo que ressaltava na sua personalidade. E uma pessoa de diálogo.Ele foi um dos combatentes mais activos pela paz, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo, pela abolição da exploração do homem pelo homem. Um combatente denodado, decidido. Penso que, quando hoje, no centenário deste homem, se está a exaltar, e deve ser exaltado, a sua personalidade de cientista, de pedagogo, se deve também necessariamente dar relevo à sua personalidade política, ao que ele foi, em termos políticos, nas épocas duras do fascismo, na luta contra a ditadura fascista. Isso também é importante dizer.

Saturday, July 19, 2008

Eleições presidenciais de 1951: Leitura do manifesto eleitoral "AO POVO" feita por José Morgado

Presentes também Ruy Luís Gomes e Virgínia Moura, entre outros. Esta fotografia deve ter sido tirada na sessão do Hotel Bragança em Lisboa. Ver: Hotel Bragança.
O documento aqui reproduzido consta do Arquivo da PIDE/DGS, relativo a José Cardoso Morgado Júnior, existente na Torre do Tombo (IAN/TT).

Sunday, July 13, 2008

Nos 50 anos da carta do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, a Salazar...

Alexandru Proca - (16 de Outubro de 1897, Bucareste - 1955, Paris)

Saturday, July 12, 2008

Guido Beck e Alexandre Proca e o seminário de Física Teórica na Universidade do Porto em Portugal

Guido Beck
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Neste artigo descrevem-se as tentativas feitas por um grupo de físicos portugueses e estrangeiros — estes últimos refugiados políticos— para criar na universidade do Porto, no início da década de 1940 um seminário de investigação e ensino no âmbito da física teórica. Na história da física em Portugal esta iniciativa de associar físicos estrangeiros à renovação científica foi pioneira. Contudo, em poucos anos, os esforços realizados por G. Beck, A. Proca e R.L. Gomes acabaram sem que os resultados almejados tenham sido alcançados. Duas razões contribuiram para isso: ausência de apoio financeiro regular que impediu a permanência dos estrangeiros e a repressão política exercida pelo regime salazarista que expurgou da universidade os mais importantes activistas deste movimento de renovação científica.
Palavras-Chave: Guido Beck, Alexandre Proca, Física Teórica, Universidade Portuguesa, Segunda Guerra Mundial.
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Tuesday, July 08, 2008

Ciência e Cidadania - Homenagem a Bento de Jesus Caraça - Fundação Calouste Gulbenkian - Auditório 3 - 10 de Julho - 18h30

Monday, July 07, 2008

As eleições presidenciais de 1951 num artigo da ALUMNI (Revista dos Antigos Alunos da Universidade do Porto) nº 4 de Abril de 2008

Publicou a revista ALUMNI neste nº 4 de Abril de 2008, página 42, um artigo intitulado A “lasca” arrebatou a cidade, que reproduzo parcialmente, e em que é referido o Professor Ruy Luís Gomes.
Eu não sou historiador mas sou antigo aluno da Universidade do Porto e sou, também, antigo aluno, amigo e admirador de sempre do Professor Ruy Luís Gomes.
Por esses motivos e porque prezo a verdade histórica, sem prejuízo de uma abordagem posterior mais pormenorizada, sinto ser meu dever esclarecer o seguinte:

1. O Professor Ruy Luís Gomes tinha sido “demitido em 1947, do seu lugar de professor catedrático da Universidade do Porto. Afastado do serviço por telegrama do Ministro da Educação Pires de Lima, por ter reclamado contra a prisão de uma aluna, foi-lhe instaurado processo disciplinar, tendo o juiz instrutor proposto a aplicação de uma pena de seis meses de suspensão de exercício e vencimento. O chamado Conselho Permanente de Acção Educativa, presidido por Mário de Figueiredo, da Junta de Educação Nacional, agravou essa pena transformando-a em demissão. [O Professor Ruy Luís Gomes] recorreu, então, para o Supremo Tribunal Administrativo, mas foi-lhe negado provimento” (19).
Portanto, nesse ano de 1951, o Professor Ruy Luís Gomes não era “professor da Universidade do Porto” porque tinha sido demitido quatro anos antes. Esta é uma triste verdade histórica que não pode ser esquecida.
Outra verdade que não pode ser esquecida é que o Professor Ruy Luís Gomes não foi simplesmente um “professor da Universidade do Porto” (embora demitido de 1947 a 1974). Além de grande cientista, internacionalmente reconhecido, e de incansável lutador pela liberdade, o Professor Ruy Luís Gomes foi o primeiro Reitor da Universidade do Porto após o 25 de Abril! (21-24) E esse foi apenas um dos cargos de alta responsabilidade que ocupou ao longo da sua carreira universitária em Portugal e no Brasil (20).

2. As circunstâncias em que a candidatura do Professor Ruy Luís Gomes não foi aceite pelo regime fascista estão sumariamente explicitadas no complemento ao seu curriculum vitae (vida política) (19):
“Na sequência de acontecimentos ocasionados pelo falecimento de Carmona, em 1951, o Movimento Nacional Democrático, apresentou-o como candidato à Presidência da República. Embora tivesse sido esta a única candidatura apresentada nos termos da legislação em vigor, alterações de última hora introduzidas na legislação, conferiram ao Conselho de Estado poderes retroactivos para rejeitar candidaturas à Presidência da República e, assim, a sua candidatura acabou por não ser aceite”.

3. O artigo da revista ALUMNI diz a determinado passo: “apesar da oposição democrática e republicana candidatar o almirante Quintão Meireles (...)”.
A verdade é que apenas uma parte da “oposição democrática e republicana” apoiava o almirante Quintão Meireles, e “uma parte” não é o “todo”. A outra parte apoiava o Professor Ruy Luís Gomes.
O próprio almirante não se assume como representante da “oposição democrática e republicana” e refere, em carta ao general Craveiro Lopes que entre eles os dois “não se trata (...) duma contenda entre partidários e adversários da actual situação política”. Mais adiante, na mesma carta, explicita que as candidaturas do almirante e do general representavam “duas orientações do situacionismo”.
As posições políticas do Professor Ruy Luís Gomes podem ser lidas no seu manifesto eleitoral (3) e noutros documentos que aqui estão referenciados o que permitirá, sem margem para dúvidas, concluir sobre quem, dos três, era o verdadeiro representante das aspirações democráticas e republicanas do povo português!

4. Para finalizar, citemos ainda o que diz o Professor Ruy Luís Gomes no seu complemento ao curriculum vitae (vida política) (19):
“Na noite de 3 para 4 de Julho de 1951, no final de uma sessão realizada no Cine Victória em Rio Tinto, foi violentemente agredido por uma força policial comandada pelo capitão Nazaré, sob as ordens do major Santos Júnior (comandante da P.S.P. no Porto). Juntamente com Virgínia Moura, Lobão Vital e José Morgado, teve de ser socorrido nos serviços de urgência do Hospital Geral de Santo António”.
Mais outras pessoas foram agredidas naquela noite em Rio Tinto e, no decorrer da campanha eleitoral, muitos democratas foram presos e submetidos à tortura nas prisões da PIDE (2)(8).
Como se pode, pois, afirmar, displicentemente, como se faz no artigo da revista ALUMNI, que “era ano de eleições para a Presidência da República, mas Portugal habituara-se a viver friamente esses momentos (...)” e que “nada” havia a “assinalar, portanto”?

Referências:

(1) Cronologia das eleições de 1951
(2) Comissão do Livro Negro sobre o regime fascista - Eleições Presidenciais de 1951
(3) "Ao Povo" - Manifesto eleitoral do candidato Ruy Luís Gomes, datado de 8 de Junho de 1951
(4) Carta da Comissão Central do MND dirigida a Salazar, datada de 8 de Junho de 1951
(5) Certificado do registo policial, a respeito de Ruy Luís Gomes, datado de 11 de Junho de 1951
(6) Carta de Ruy Luís Gomes, dirigida a Salazar, datada de 13 de Junho de 1951, colocando as "condições mínimas" para a participação no acto eleitoral
(7) Três telegramas em que se pede que seja declarada inconstitucional a Lei nº 2048 promulgada em 11 de Junho de 1951
(8) Telegrama em que Ruy Luís Gomes reclama a imediata libertação de democratas presos
(9) "Informação" anotada por Salazar
(10) Requerimento de Ruy Luís Gomes, dirigido ao Supremo Tribunal de Justiça, para que "considere o requerente elegível"
(11) Manifesto sobre os acontecimentos de Rio Tinto, datado de 4 de Julho de 1951
(12) Fotografia de Ruy Luís Gomes ferido durante os acontecimentos de Rio Tinto em 3 de Julho de 1951
(13) Carta de protesto relativa aos acontecimentos de Rio Tinto, dirigida a Salazar e datada de 5 de Julho de 1951
(14) Telegrama de 6 de Julho de 1951 reclamando contra agressões em Rio Tinto
(15) Carta de Quintão Meyreles dirigida a Craveiro Lopes
(16) Manifesto da Comissão Distrital do Porto do MND, de 12 de Julho de 1951
(17) Resultados das eleições de 1951...
(18) Eleições presidenciais de 1951: carta de Quintão Meyreles a Craveiro Lopes
(19) Transcrição do "Complemento ao curriculum vitae de Ruy Luís Gomes (vida política)"
(20) CURRICULUM VITAE CIENTÍFICO de Ruy Luís Gomes
(21) Aclamação de Ruy Luís Gomes em 4 de Maio de 1974
(22) Primeira posse de Ruy Luís Gomes como Reitor
(23) Termo de posse como Reitor da Universidade do Porto
(24) Ruy Luís Gomes - Reitor da Universidade do Porto


A “lasca” arrebatou a cidade
Era ano de eleições para a Presidência da República, mas Portugal habituara-se a viver friamente esses momentos porque o resultado era conhecido. Nada a assinalar, portanto, excepto que, nessas eleições de 21 de Julho de 1951, se apresentaria Ruy Luís Gomes, matemático e professor da Universidade do Porto, depois considerado “sem idoneidade”, portanto não elegível, pelo Supremo Tribunal, mais uma manigância “de secretaria” do regime salazarista. Apesar da oposição democrática e republicana candidatar o almirante Quintão Meireles, as eleições seriam ganhas por Craveiro Lopes – indicado pelo partido do poder, a União Nacional –, que sucedia assim a Oscar Carmona.
As atenções viravam-se então para assuntos mais prosaicos do dia-a-dia. A televisão ainda não chegara aos lares portugueses. Entre os vários concertos e espectáculos de teatro que havia na cidade, a memória das gentes do Porto (...)

Saturday, July 05, 2008

Eleições presidenciais de 1951: carta de Quintão Meyreles a Craveiro Lopes

CANDIDATURA À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
(Candidato: Almirante Quintão Meyreles)
COMISSÃO CENTRAL
Rua de S. Julião, 48, 3.º - Tel. 27605
LISBOA

Ex.mo Senhor
General Craveiro Lopes
Lisboa

Ex.mo Senhor,

Quis o destino que dois oficiais generais, um do Exército, outro da Armada – V. Ex.a e eu – nos proposéssemos disputar os votos do eleitorado para a investidura do mais alto cargo da orgânica do Estado Português. Ambos fomos, por certo levados a aceitar esta situação por imperativos de consciência e não por ambição ou com propósito de servir apetites de clientelas que desfrutem ou aspirem a desfrutar as benesses do Poder, disfarçando a sua avidez sob a máscara do mais puro patriotismo.
Não se trata, por outro lado, duma contenda entre partidários e adversários da actual situação política. O que explica o aparecimento das nossas duas candidaturas é a existência, dentro do situacionismo, de duas correntes de opinião – a dos homens que fizeram o «28 de Maio» com o objectivo de destruir o monopólio do Poder por um Partido Único, de tornar eficiente e moral a actividade governativa e de elevar o baixo nível material e espiritual da vida portuguesa, e a dos homens que, aproveitando-se da isenção dos primeiros, se alcandoraram no Poder e acabaram por deturpar e mesmo inverter as intenções iniciais do «28 de Maio».
Se, nesta emergência, os primeiros se resolveram a travar uma batalha eleitoral, fizeram-no sob o acicate do remorço, nascido da convicção das suas responsabilidades morais na produção de um estado de coisas indesejável. E, se abdicando de estreitas finalidades partidárias os democratas portugueses depõem as armas e se propõem secundá-los, deve considerar-se abendiçoado este conjunto de circunstâncias, já que nos pode conduzir à verdadeira Unidade Nacional – aquela que decorre de mútuas abdicações, para fazer surgir um denominador comum ideológico, e à bem diferente da falsa Unidade Nacional, imposta ferreamente por uma coacção de tipo hitleriano ou estaliniano.
Tendo em vista o exposto, a eleição presidencial representará o acto político que há-de permitir verificar qual das duas orientações do situacionismo pode e deve triunfar, e qual dos dois tipos de Unidade Nacional se pretende atingir nesta época caótica da vida universal.
Mas nem eu, nem V. Ex.ª, nos poderíamos considerar legitimamente investidos em funções presidenciais se a vitória da corrente que nos secunda, porventura resultasse de incontestável fraude eleitoral ou de indecorosas inibições opostas à livre manifestação da vontade nacional.
Como V. Ex.ª, escolhido pela União Nacional, como seu candidato, vai beneficiar e está beneficiando dos favores do Estado, entendo que é meu direito e, simultaneamente, meu dever delegar em V. Ex.ª, para o efeito de reclamar dos poderes Públicos absoluta honestidade eleitoral, para o que devemos ser postos em condições de igualdade no tocante a propaganda e fiscalização das urnas e devem abster-se os órgãos do estado de quaisquer coacções ou intervenções tendentes a impedir a liberdade do voto.
Fiando-me, pois, no inegável aprumo moral de V. Ex.ª, militar prestigioso e honrado, posso esperar que V. Ex.ª, forçará os Poderes Públicos a uma atitude de imparcialidade, que, os dois possamos utilizar de modo idêntico, para efeitos de propaganda, a Emissora nacional e as salas de reunião de certos edifícios públicos e que aos delegados dos dois candidatos seja permitida a fiscalização eficiente das mesas eleitorais e das assembleias de apuramento, fiscalização que a lei não impõe, mas também não proíbe.
E em caso de recusa governamental ou de violação de elementares normas de decência eleitoral, invoco desde já a solidariedade de V. Ex.ª, para assumirmos uma atitude comum.
Aguardando a decisão de V. Ex.ª, sobre a matéria desta carta cumpre-me informá-lo lealmente de que lhe darei a publicidade que me for permitida e enviarei cópia ao senhor Presidente do Conselho, para os fins que Sua Excelência, como Chefe do Poder executivo, tiver por mais convenientes.
Afirmando-lhe os meus sentimentos de alta consideração e estima, subscrevo-me

De V. Ex.ª
Camarada, Att.° Vnr. e Obr.
a) Manuel Carlos Quintão Meireles
[sublinhados do autor deste blogue]

Friday, April 25, 2008

25 de Abril!

Wednesday, April 16, 2008

RUY LUÍS GOMES, por Luís Veiga Leitão


Digitalizações das duas primeiras imagens de Paulo Morgado
© Paulo Morgado

Luís Veiga Leitão (ver Luís Veiga Leitão - Wikipédia)

Monday, December 03, 2007

Professor Ruy Luís Gomes (1905 - 1984)

Thursday, October 25, 2007

José Cardoso Morgado

Ruy Luís Gomes, José Cardoso Morgado e Paulo Morgado

Neste blogue sobre Ruy Luís Gomes é com muito prazer que se assinala o nascimento de um novo blogue destinado a celebrar um seu grande e inseparável amigo. Aqui:

José Cardoso Morgado
Intervenções públicas do Professor José Morgado
(o autor é Paulo Morgado)

Saturday, May 05, 2007

ÍNDICE


Toda a correspondência (comentários, sugestões, etc.) pode ser dirigida para rezende@cii.fc.ul.pt
*
HISTÓRIA DAS MATEMÁTICAS EM PORTUGAL, por Francisc...
Bento de Jesus Caraça ­- The Man and his Time (Ulp...
Os professores portugueses no Recife - excerto de ...
Bento de Jesus Caraça - Um Homem Para Todos os Tem...
Fernando Lopes Graça faria hoje 100 anos!
101 anos
Faleceu Alfredo Pereira Gomes
Alfredo Pereira Gomes
Centenário de Rómulo de Carvalho (4): António é o ...
Centenário de Rómulo de Carvalho (3)
Centenário de Rómulo de Carvalho (2)
Centenário de Rómulo de Carvalho (1)
"Recordar Angola - 2º Volume", de Paulo Salvador, ...
António Aniceto Monteiro faleceu há 26 anos
'António é o meu nome', Rómulo de Carvalho
BOLETIM DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE MATEMÁTICA, número especial dedicado a Ruy Luís Gomes
No Aeroporto Internacional dos Guararapes (Recife) em 1 de Novembro de 1962
GAZETA DE MATEMÁTICA, nº 151, de Julho de 2006
Uma fotografia de grupo no Brasil
Centenário do nascimento de Corino de Andrade, grande amigo de Ruy Luís Gomes
Alfredo Pereira Gomes e Fernando Soares David, 1º Prémio Francisco Gomes Teixeira
António Aniceto Ribeiro Monteiro nasceu há 99 anos
João Pessoa, Capital de Paraíba
Com outras pessoas
Penedo, 6 de Julho de 1963
Recife, Maio de 1962
Humberto Delgado nasceu há 100 anos
Palmeira dos Índios, 3 de Julho de 1963
10 de Maio de 2006: Centenário do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes
Paulo Morgado, Margarida Luís Gomes e Ruy Luís Gomes
Ruy Luís Gomes, Margarida Luís Gomes e Helena Novais
Frontaria da Capela de São Miguel, Paço das Escolas, Universidade de Coimbra
Na Festa da Amizade, 1979 - José Morgado e Ruy Luís Gomes
Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa
4 de Maio de 1974 - regresso do Brasil
(5) José Morgado, Ruy Luís Gomes e Paulo Morgado
(4) José Morgado e Ruy Luís Gomes
Primeiro de Maio!
(3) José Morgado e Ruy Luís Gomes
(2) José Morgado e Ruy Luís Gomes
(1) José Morgado e Ruy Luís Gomes
ABRIL!
25 de Abril sempre!
Helena Novais e Ruy Luís Gomes
Carta de Tulio Levi-Civita de 29 de Junho de 1936
(2) Carta de Aureliano de Mira Fernandes
(1) Carta de Aureliano de Mira Fernandes
Artigos de Jean Dieudonné na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de Sixto Ríos na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de Louis de Broglie na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Leopoldo Nachbin na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Alfredo Pereira Gomes na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de John von Neumann na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Maurice Fréchet na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Rodrigo Sarmento de Beires na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de J. Sebastião e Silva na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Hugo B. Ribeiro na "Portugaliae Mathematica"
Artigo de Pedro José da Cunha na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Vicente Gonçalves na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Aureliano de Mira Fernandes na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de António Aniceto Monteiro na "Portugaliae Mathematica"
Artigos de Ruy Luís Gomes na "Portugaliae Mathematica"
O regresso de António Monteiro a Portugal de 1977 a 1979, por Alfredo Pereira Gomes
Professor António Monteiro and contemporary mathematics in Argentina, por Eduardo L. Ortiz
The influence of António A. Ribeiro Monteiro in the development of Mathematics in Brazil, por Leopoldo Nachbin
THE MATHEMATICIAN HUGO RIBEIRO, por Jorge Almeida
Artigos sobre António Aniceto Monteiro de Hugo Ribeiro, Ruy Luís Gomes e Luís Neves Real
Ficha 17.128 da PIDE
Sessão evocativa do centenário do nascimento de Ruy Luís Gomes, no Porto
Transiberiano
Excertos de "A revolução republicana de 31 de Janeiro"
Virgínia Moura e Maximiano Silva, amigos de Ruy Luís Gomes (notícias dos falecimentos)
3º Congresso da Oposição Democrática - Aveiro - 4 a 8 de Abril de 1973
Maurice Fréchet (1878-1973)
PORTUGUESE MATHEMATICAL JOURNALS - SOME ASPECTS OF (ALMOST) PERIODICAL RESEARCH PUBLICATIONS (José Francisco Rodrigues)
Transcrição do "Complemento ao curriculum vitae de Ruy Luís Gomes (vida política)"
Excertos de "Investigação Científica" (cinco artigos publicados no Diário de Lisboa), de Ruy Luís Gomes
GAZETA DE MATEMÁTICA, nº 150, de Janeiro de 2006
BOLETIM da Sociedade Portuguesa de Matemática, nº 53, de Outubro de 2005
GAZETA DE FÍSICA
Citação retirada de "O valor social da investigação científica"
Excerto da introdução ao livro "Conferências e Outros Escritos" de Bento de Jesus Caraça
Transcrição de "Bento Caraça - Grande Educador"
ALBERT EINSTEIN - E=mc^2: o mais urgente problema do nosso tempo
Citação retirada de "A relatividade – origem, evolução e tendências actuais"
Oferta da ES/3 Prof. Ruy Luís Gomes, Laranjeiro, Almada
Avenida Professor Ruy Luís Gomes - matemático, 1905-1984 [Laranjeiro, Almada]
Escola secundária com 3º ciclo do ensino básico Professor Ruy Luís Gomes, Laranjeiro, Almada
João de Freitas Branco
Fotografias de Ruy Luís Gomes com outras pessoas
Homenagem na ES/3 Prof. Ruy Luís Gomes no dia 3 de Janeiro
Homenagens
Jantares...
Porto - 200 anos de vida académica
Medalhas da Olimpíada Pernambucana de Matemática Ruy Luís Gomes
Cartaz da UTAD, 30 de Setembro de 2005
Alameda do Prof. Ruy Luís Gomes, Porto
SPM - Almoço em homenagem aos sócios mais antigos e ex-presidentes, 19 de Dezembro de 2005
Rua do Pinheiro Manso, 19, 3º D, Porto
Rua António Cândido, 256, 2º, Porto
Fernando Lopes Graça: 17 de Dezembro de 1906 - 27 de Novembro de 1994
Rua da Restauração, 430, Porto
Porto, 5 de Dezembro de 2005, Departamento de Matemática
Porto, 5 de Dezembro de 2005, Reitoria
O "Público" de 6 de Dezembro
O "Primeiro de Janeiro" de 5 de Dezembro
O "Diário de Notícias" de 5 de Dezembro
O "Jornal de Notícias" de 5 de Dezembro
Nuno Grande no "JN" de 5 de Dezembro: "Uma grata homenagem"
O Primeiro de Janeiro: "O cientista cívico"
Duas fotografias
MCTES enviou uma mensagem à Conferência comemorativa do centenário do Prof. Ruy Luís Gomes (1905–1984), no dia 5 de Dezembro, no Porto
A JUNTA DE EDUCAÇÃO NACIONAL, por Isabel Serra
JN: "O matemático-investigador que lutou pela democracia"
Goa Miscellania: "Centurion, Portuguese... and a stand"
100 anos
Fotografias de José Morgado e Ruy Luís Gomes com outras pessoas
Fotografia de Virgínia Moura, Ruy Luís Gomes e Lobão Vital entre outros
Carta de José Morgado e Ruy Luís Gomes ao Cardeal Cerejeira, datada de 12 de Abril de 1968, aquando da visita deste ao Brasil
Página da SPM sobre o centenário do nascimento de Ruy Luís Gomes
A Câmara Municipal do Porto anuncia o centenário
[Tullio] Levi-Civita (1873-1941), por Ruy Luís Gomes - Anais da Faculdade de Ciências do Porto, Vol. XXVIII, nº 1 (1943)
Miguel Urbano Rodrigues na UPP em 26 de Novembro: "Ruy Luís Gomes foi fundamental na denúncia do colonialismo"
(3ª parte de) O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
(2ª parte de) O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
(1ª parte de) O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português, por José Morgado
Universidade Popular do Porto: Homenagem a Ruy Luís Gomes em 26 de Novembro de 2005
O Ciência Hoje volta a assinalar o centenário de Ruy Luís Gomes
Transcrição da carta a Salazar, de 26 de Junho de 1954
Carta a Salazar, de 26 de Junho de 1954, a propósito da ida ao Congresso Internacional de Matemática
Carta do INTERNATIONAL CONGRESS CONGRESS OF MATHEMATICIANS 1954, datada de 31 de Março de 1954
Cartas para José Antunes Serra, da prisão da Ajuda (9 de Novembro de 1945) e da PIDE (19 de Outubro de 1946)
Transcrição da Carta ao Bispo do Porto (o caso da Índia)
Carta ao Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, escrita na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo em 29 de Novembro de 1956 (o caso da Índia)
O Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes
Ressalva Prisional, de 29 de Junho de 1956, e bilhete de M. J. Palma Carlos, de 11 de Fevereiro de 1957 (o caso da Índia)
Um Bilhete Postal de Armando Bacelar, datado de 1 de Fevereiro de 1955 (o caso da Índia)
Fotografias de Ruy Luís Gomes feitas pela PIDE
Prisões de Ruy Luís Gomes (excertos adaptados da ficha 17.128 da PIDE)
O caso da Índia
A Teoria da Relatividade - Espaço. Tempo. Gravitação, por Ruy Luís Gomes
Gago Coutinho e Ruy Luís Gomes
A RELATIVIDADE - Origem, evolução e tendências actuais (por Ruy Luís Gomes)
Ruy Luís Gomes – uma fotobiografia
(5º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - A escolha dos quadros dirigentes [Diário de Lisboa de 22 de Setembro de 1945]
(4º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - Mobilização nacional para o trabalho através da investigação [Diário de Lisboa de 10 de Setembro de 1945]
(3º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - A experiência alheia e a nossa necessidade [Diário de Lisboa de 10 de Agosto de 1945]
(2º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - Como evoluiu nos últimos 150 anos [Diário de Lisboa de 14 de Maio de 1945]
(1º artigo sobre) INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - A sua evolução nos últimos 50 anos [Diário de Lisboa de 23 de Abril de 1945]
Um estudo sobre a Matemática em Portugal no século XX, por Elza Amaral
Ruy Luís Gomes: Uma Fotobiografia (Natália Bebiano da Providência (coord.))
Reedições no âmbito das comemorações do centenário de Ruy Luís Gomes no Porto
Ruy Luís Gomes - cientista e revolucionário
Ruy Luís Gomes e Vasco Gonçalves
(4ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
(3ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
(2ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
(1ª parte de) A REVOLUÇÃO REPUBLICANA DE 31 DE JANEIRO, por Ruy Luís Gomes
«31 de Janeiro» - 1891, por Eça de Queirós (Biblioteca Nacional)
PROBLEMAS DE INVESTIGAÇÃO E HISTÓRIA - Ruy Luís Gomes, Editorial Inova, Porto (1969)
Resultados das eleições de 1951...
Manifesto da Comissão Distrital do Porto do MND, de 12 de Julho de 1951
Carta de Quintão Meyreles dirigida a Craveiro Lopes
Telegrama de 6 de Julho de 1951 reclamando contra agressões em Rio Tinto
Carta de protesto relativa aos acontecimentos de Rio Tinto, dirigida a Salazar e datada de 5 de Julho de 1951
Fotografia de Ruy Luís Gomes ferido durante os acontecimentos de Rio Tinto em 3 de Julho de 1951
Manifesto sobre os acontecimentos de Rio Tinto, datado de 4 de Julho de 1951
Requerimento de Ruy Luís Gomes, dirigido ao Supremo Tribunal de Justiça, para que "considere o requerente elegível"
"Informação" anotada por Salazar
Telegrama em que Ruy Luís Gomes reclama a imediata libertação de democratas presos
Três telegramas em que se pede que seja declarada inconstitucional a Lei nº 2048 promulgada em 11 de Junho de 1951
Carta de Ruy Luís Gomes, dirigida a Salazar, datada de 13 de Junho de 1951, colocando as "condições mínimas" para a participação no acto eleitoral
Certificado do registo policial, a respeito de Ruy Luís Gomes, datado de 11 de Junho de 1951
Carta da Comissão Central do MND dirigida a Salazar, datada de 8 de Junho de 1951
"Ao Povo" - Manifesto eleitoral do candidato Ruy Luís Gomes, datado de 8 de Junho de 1951
Comissão do Livro Negro sobre o regime fascista - Eleições Presidenciais de 1951
Cronologia das eleições de 1951
Carta anunciando a licenciatura de Ruy Luís Gomes, de 19 de Dezembro de 1928
Uma notícia de "O Diário", no 3º aniversário da morte de Ruy Luís Gomes
Notícias sobre o falecimento de Ruy Luís Gomes em "O Diário"
Voto de pesar da Câmara Municipal do Recife
21 anos
Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro
Egas Moniz e Ruy Luís Gomes numa foto de conjunto
Movimento Matemático 1937-1947
O Governo Provisório da República em 1910
Ruy Luís Gomes e Alfredo Pereira Gomes
Ruy Luís Gomes e amigos
Ruy Luís Gomes e a esposa - Margarida Luís Gomes
A mãe de Ruy Luís Gomes
Fotos de família
Ruy Luís Gomes, o pai, a mãe e o irmão
Ruy Luís Gomes, o pai e o irmão - ambos António Luiz Gomes
Sobre a família de Ruy Luís Gomes - uma notícia de 15 de Março de 2000
Auto-retrato e fotografia de Abel Salazar, grande amigo de Ruy Luís Gomes
Notícias sobre a fundação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
"Estarei sempre ao lado da justiça e nunca do lado negro da vingança"
Primeira posse de Ruy Luís Gomes como Reitor
Aclamação de Ruy Luís Gomes em 4 de Maio de 1974
O pai de Ruy Luís Gomes - António Luiz Gomes
Cartas entre Guido Beck e cientistas portugueses, por Augusto J. S. Fitas e António A. P. Videira
Muito novo, no uso da palavra
Fotografia de um conjunto de matemáticos
Virgínia Moura, Ruy Luís Gomes e Lobão Vital
PORTUGALIAE MATHEMATICA
Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
Duas palestras lidas ao microfone de Rádio Clube Lusitânia (António A. Monteiro e Ruy Luís Gomes)
Fotografias de Ruy Luís Gomes
Extratos do livro MULHER DE ABRIL - álbum de memórias, de Virgínia Moura
O Ciência Hoje assinala o centenário de Ruy Luís Gomes
Na morte do Prof. Ruy Luís Gomes - ABRIL VENCERÁ!, por Virgínia Moura e José Morgado
AFINIDADES - Revista da Casa Museu Abel Salazar
Um professor português no Recife
Comemorações no Porto no dia 5 de Dezembro de 2005
À MEMÓRIA DE BENTO DE JESUS CARAÇA, por Ruy Luís Gomes
Segunda parte da revista VÉRTICE, números 412/413/414 (1978), dedicada a Bento de Jesus Caraça
Primeira parte da revista VÉRTICE, números 412/413/414 (1978), dedicada a Bento de Jesus Caraça
Gazeta de Matemática no ano da morte de Bento de Jesus Caraça
Bento de Jesus Caraça - Grande Educador, por Ruy Luís Gomes
Uma carta da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa, datada de 24 de Abril de 1953
Carta ao Reitor da Universidade do Recife, datada de 27 de Novembro de 1964
LA HISTORIA DE LA MATEMATICA EN BAHIA BLANCA (1972-1999), por Edgardo Fernández Stacco
A MATEMÁTICA NO BRASIL - Uma História de seu Desenvolvimento (por Clóvis Pereira da Silva)
Integral de Lebesgue-Stieltjes, por Ruy Luís Gomes
Integral de Riemann, por Ruy Luís Gomes
Dois meses antes de Abril...
Termo de posse como Reitor da Universidade do Porto
Ruy Luís Gomes - Reitor da Universidade do Porto
CURRICULUM VITAE POLÍTICO de Ruy Luís Gomes
CURRICULUM VITAE CIENTÍFICO de Ruy Luís Gomes
Ruy Luís Gomes - Resistente antifascista (artigo de Alberto Vilaça)
Carta a Pereira Gomes sobre a ida para o Recife - datada de 28 de Junho de 1961
Carta de Pereira Gomes convidando Ruy Luís Gomes a ir para o Recife - datada de 30 de Maio de 1961
Contribuição Matemática do Professor Dr. António A. R. Monteiro, por Luiz F. Monteiro
Declaração de António Monteiro e Silva Paulo relativamente a quantias recebidas da JIM
Uma carta de António Aniceto Monteiro, proveniente de S. Juan, Argentina, e datada de 27 de Abril de 1954
"O António Monteiro escreveu" - manuscrito de Abel Salazar
"Não há tempo a perder"... - uma carta de António Aniceto Monteiro
Teoria da Relatividade Restrita, por Ruy Luís Gomes
Homenagem a Ruy Luís Gomes - Departamento de Matemática da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, 30 de Setembro
José Manuel Sarmento de Beires - uma carta da penitenciária
Rodrigo Sarmento de Beires
José Duarte da Silva Paulo (1905-1976)
Fotografias de Bento de Jesus Caraça
A obra de investigação empreendida recentemente pelo Prof. Ruy Luís Gomes no domínio das matemáticas, por Luís Neves Real (1953)
"Para a História da Sociedade Portuguesa de Matemática", por José Morgado
Abel Salazar, por Carlos Vieira Reis
Cronologias
Lopes Graça, por Leonor Lains
Bento de Jesus Caraça, por Leonor Lains
Entrevista a MISCHA COTLAR, feita por Carlos Borches
Ministros desde 28 de Maio de 1926 até 24 de Abril de 1974
Memórias de José Relvas
Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável - o testemunho de Dias Lourenço
Defesa de Bento de Jesus Caraça
Nota de Culpa de Bento de Jesus Caraça
O Prof. Ruy Luis Gomes no Recife (Departamento de Matemática - UFPE), por Fernando Cardoso
Páginas do Departamento de Matemática - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil
Ciência em Portugal – Personagens e Episódios
Matemáticos entre a Argentina e o Brasil
Os 60 anos dos bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui - Excertos de um artigo de Ruy Luís Gomes no jornal «Avante!»
As eleições de 18 de Novembro de 1945
CENTRO DE MATEMÁTICA DA UNIVERSIDADE DO PORTO - MEMÓRIAS
INVENTÁRIO DO MATERIAL RECOLHIDO PARA A EXPOSIÇÃO DOCUMENTAL DE HOMENAGEM AO PROFESSOR RUY LUÍS GOMES
Tentativa Feitas nos Anos 40 para criar no Porto uma escola de Matemática, por Ruy Luís Gomes
À memória de Ruy Luís Gomes - Boletim da SPM nº 8 (Set. de 1985)
ANTONIO A. MONTEIRO (31/05/1907-29/10/80), por Edgardo Luis Fernández Stacco
Tipografia Matemática
"O verdadeiro poeta era ele" - um texto de José Gomes Ferreira sobre Bento de Jesus Caraça
A luta contra a guerra (Bento de Jesus Caraça)
RECORDANDO A DON RUY LUIS GOMES, por Edgardo Luis Fernández Stacco
Ruy Luís Gomes

Sunday, January 14, 2007

HISTÓRIA DAS MATEMÁTICAS EM PORTUGAL, por Francisco Gomes Teixeira

HISTÓRIA DAS MATEMÁTICAS EM PORTUGAL
(nas páginas pessoais de José Manuel Matos)

Academia das Ciências de Lisboa
BIBLIOTECA DE ALTOS ESTUDOS
HISTÓRIA DAS MATEMÁTICAS EM PORTUGAL
por
Francisco Gomes Teixeira
Lisboa 1934
Lições proferidas de 12 a 19 de Abril de 1932

Monday, January 01, 2007

Bento de Jesus Caraça ­- The Man and his Time (Ulpiano Nascimento)