Sunday, July 03, 2016

Ruy Luís Gomes, o início do Movimento Matemático e a fundação do Centro de Estudos Matemáticos do Porto - Jorge Rezende

Prefácio a dois livros de Ruy Luís Gomes sobre Teoria da Relatividade (A Relatividade: Origem, evolução e tendências actuais; Teoria da Relatividade Restrita) republicados num volume único pelas Edições do CMUP no âmbito das comemorações do centenário de Ruy Luís Gomes em 2005.
De 19 a 28 de Abril de 1937, o matemático Ruy Luís Gomes, então professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto realiza, nas instalações do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e a convite do Núcleo de Matemática, Física e Química, um curso sobre Teoria da Relatividade Restrita. Este curso seria publicado pelo Núcleo no ano seguinte e é um dos textos que faz parte desta edição.
O Núcleo de Matemática, Física e Química fora fundado, em 1936, por iniciativa de Arnaldo Peres de Carvalho, Herculano Amorim Ferreira, Manuel Valadares, António da Silveira e Bento de Jesus Caraça. Todos eles, excepto Bento Caraça, tinham feito a sua formação no estrangeiro. Peres de Carvalho doutorou-se no Collège de France, Paris. Amorim Ferreira estudou no Imperial College (Londres) e era professor catedrático na FCUL. Manuel Valadares estudou no Institut du Radium e doutorou-se na Universidade (Paris). Antóno da Silveira tinha estagiado no Collège de France e era professor catedrático no IST. A formação do Núcleo assinala, assim, uma ruptura com o passado científico português de isolamento interno e internacional e foi a primeira tentativa de criar uma Escola de Ciência em moldes modernos no nosso país, embora nunca tivesse chegado a dedicar-se verdadeiramente à promoção da investigação científica.
Entretanto, em 1936, o matemático António Aniceto Monteiro, tinha-se doutorado em Paris, sob a orientação de Maurice Fréchet, com uma tese intitulada “Sur l’additivité des noyaux de Fredholm”. Regressado a Portugal, imediatamente integra as actividades do Núcleo de que passa a ser um dos elementos mais activos, conjuntamente com António da Silveira e Manuel Valadares.
O Núcleo limitou-se essencialmente a ministrar cursos de elevado nível, o primeiro dos quais foi iniciado em 16 de Novembro de 1936 por Bento de Jesus Caraça, sobre “Cálculo Vectorial”. A ideia era a de publicar os cursos, o que só acabou por ser feito com os de Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes e Amorim Ferreira, em edições de muito boa qualidade. Embora o fascismo lhe tivesse movido perseguições diversas, nomeadamente dificultando a utilização das Universidades, sendo o IST o único a abrir a suas portas, o Núcleo acabou por se dissolver por divergências internas em 1939.
Ficou a semente... E ela produziu os seus frutos até 1947, altura em que, como é sobejamente conhecido, o fascismo fez a última grande vaga de expulsões que aniquilou quase por completo o movimento científico português.
Entretanto, nos números 534, 535, 536 e 537, a Seara Nova publica semanalmente, entre 6 e 27 de Novembro de 1937, os artigos “Mecânica clássica e mecânica relativista”, de Gago Coutinho, “dedicados aos alunos do Física liceal”, e onde se propõe “voltar a atacar” a Relatividade. Diz Gago Coutinho no primeiro deste artigos: “Julgava eu, pois, que não teria de voltar a atacá-la (a Relatividade); mas o facto de há meses se ter apresentado em Lisboa um professor universitário a fazer conferências sobre a Relatividade Restrita – como há anos fez o professor Langevin – provou-me que a chamada Mecânica Nova ainda conserva adeptos e que viria a propósito renovar as minhas dúvidas, ou, objecções, a respeito desta Revolução Científica”.
No nº 539 da Seara Nova o Núcleo de Matemática, Física e Química publica uma nota em que protesta contra os artigos de Gago Coutinho onde chama a atenção do Almirante e dos leitores da Seara Nova para os pontos seguintes:
“1º Numa série de cursos de introdução à Física Moderna não podia deixar de figurar a Teoria da Relatividade. Num livro recente intitulado «La physique nouvelle et les quanta» (1937), o professor da Sorbonne Louis de Broglie, laureado Nobel e um dos grandes obreiros da Física Moderna, diz o seguinte: «Avant d’aborder l’étude du développement de nos connaissances sur les quanta, il est impossible de ne pas consacrer un court chapitre à la théorie de la relativité. Relativité et quanta sont les deux piliers de la physique théorique contemporaine...» (pág. 82). E mais: «La relativité restreinte a reçu de belles confirmations expérimentales...» (pág. 102). E o Sr. Almirante Gago Coutinho deve saber o que isto significa para impor uma teoria física.
2º Este Núcleo aproveita a ocasião para prestar pública homenagem ao Sr. Professor Ruy Luís Gomes pela elevação com que tratou o assunto de que se encarregara, pela elegância e originalidade das suas deduções matemáticas, e pelo agudo sentido físico e filosófico da sua exposição.
3º Finalmente este Núcleo considera grave que o Sr. Almirante Gago Coutinho dedique os seus artigos aos alunos de Física liceal. Dirigindo-se a quem tem forçosamente uma cultura reduzida e faculdades críticas pouco desenvolvidas, o Sr. Almirante vai, possivelmente, com o prestígio do seu nome feito em campo e assunto diferentes, criar a falsa opinião de que a teoria da relatividade consiste num amontoado de absurdos, contribuindo assim para desenvolver em jovens estudantes uma mentalidade de desconfiança perante a ciência”.
Gago Coutinho responde no nº 540 da Seara Nova explicando aí , num tom cordato, que apenas conhecia a Relatividade Restrita de “folhetos de vulgarização, como os de Einstein, Langevin e Metz”.
Por manifesto desejo de Gago Coutinho a Seara Nova inicia depois a publicação de seis artigos de Ruy Luís Gomes com o título “A relatividade – origem, evolução e tendências actuais”. Saem nos números 541, 543, 545, 547, 550, 553 (de 25 de Dezembro de 1937, 8 e 22 de Janeiro, 5 e 26 de Fevereiro e 19 de Março de 1938) e que são publicados em 1938, num único volume nos Cadernos Seara Nova, saindo a 2ª edição em 1943. Houve mais uma edição, em 1969, que reproduzia a de 1943, inserida na colectânea de textos de Ruy Luís Gomes “Problemas de investigação e história”. Este é o outro dos dois textos que fazem parte desta edição publicada pelo Centro de Matemática da Universidade do Porto, comemorativa do centenário de Ruy Luís Gomes.
Refira-se ainda que, mesmo depois destas publicações de 1937-1938, Gago Coutinho e Ruy Luís Gomes continuaram a trocar alguma, e sempre amável, correspondência.
O curso desse Abril de 1937, relizado no IST, marcou, o primeiro encontro entre três homens que viriam a ser os pilares dos desenvolvimento do Movimento Matemático – António Aniceto Monteiro, Bento de Jesus Caraça e Ruy Luís Gomes.
A influência de Bento de Jesus Caraça no meio cultural e científico é bem conhecida. Dele afirmou Ruy Luís Gomes em 1948, ano da sua morte:
“Na verdade, Bento Caraça pertenceu ainda a uma geração que fez a sua própria educação, no domínio da Matemática, numa época em que as nossas Escolas Superiores estavam inteiramente enformadas pelo velho e desastroso conceito de que se pode ser um grande professor universitário sem nunca se ter patenteado, na análise exaustiva de algum problema concreto, a garra ou, pelo menos, o sentido de investigador.
(...)
Bento Caraça não foi, pois, um investigador, mas superando o meio em que foi educado e lançando-se desde muito novo nas tarefas de ensino, em breve se juntou aos que deram o primeiro passo para fazer triunfar nas nossas Escolas Superiores uma nova concepção da vida universitária.
(...)
Vencendo as suas próprias dificuldades e tirando delas um ensinamento para facilitar a formação profissional da juventude, contribuiu em larga medida para que a investigação se tornasse uma primeira realidade, e, procedendo assim, deu um conteúdo real e progressivo à sua missão de educador.
(...)
Alinhando com aqueles que pretendem transformar as nossas Universidades em Centros de Investigação e verdadeiras escolas de trabalho, escolheu como primeiro valor, no domínio da sua actividade de professor, a subordinação dos seus interesses imediatos a um interesse superior – o da preparação profissional da juventude.
E sacrificando tudo, desde a cátedra, de que foi afastado, até às exigências da sua saúde precária, aos grandes valores morais – inteireza de carácter, sentimento de solidariedade e coerência de princípios – deu-nos a todos a melhor lição da sua vida.
O seu exemplo pertence ao património moral da nossa Pátria. O povo português nunca o esquecerá!”
A influência de António Aniceto Monteiro é menos conhecida do que a de Bento de Jesus Caraça, sendo verdade que ela foi muito importante na história do arranque do Movimento Matemático no que diz respeito à investigação científica. Na verdade, António Aniceto Monteiro foi o primeiro investigador português em matemática nos moldes em que actualmente se considera a investigação científica e foi determinante a sua influência sobre Ruy Luís Gomes, que, na altura, já era um investigador credenciado internacionalmente.
Este facto é confirmado por José Morgado em [JM]:
“As conferências realizadas em Lisboa, a convite do Núcleo de Matemática, Física e Química, permitiram a Ruy Luís Gomes tomar contacto com o trabalho de actualização e de formação de investigadores que António Monteiro e os outros trabalhadores científicos do «Núcleo» estavam iniciando. Daqui nasceu naturalmente uma colaboração estreita com António Monteiro”.
Luís Neves Real também o corrobora em [LNR]:
“Porém, à volta de 1940, o encontro do Professor Ruy Luís Gomes com o Doutor António Aniceto Monteiro permitiu-lhe conhecer de perto um invulgaríssimo entusiasta da causa da investigação matemática em Portugal e um método frutuoso de iniciar a nossa juventude no treino da pesquisa científica, orientada em conformidade a um plano geral, que atribui, a cada estudioso, uma tarefa própria”.
Tudo isto é também referido pelo próprio Ruy Luís Gomes ao enumerar iniciativas em que António Monteiro teve um papel determinante – além do Núcleo, há ainda a fundação da revista Portugaliae Mathematica (1937), o Seminário de Análise Geral e a Gazeta de Matemática (1939), o Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa e a Sociedade Portuguesa de Matemática (1940) [RLG]:
“Estas realizações e os contactos directos que já havíamos tido com António Monteiro traduziram-se em novos estímulos para a nossa própria actividade, sempre dominada pelo desejo de criar no Porto uma Escola de Matemática”.
Em nenhuma delas, excepto no caso da SPM, aparece o nome do matemático portuense como fundador (embora nelas tivesse participado com muito entusiasmo) provavelmente pela simples razão de que todas aconteceram em Lisboa e o isolamento entre as duas cidades era real. Só a partir de 1940 se dá, de facto, a “unificação” da actividade matemática em Portugal.
Antes dessa data havia no Porto, na Secção de Matemática, dois centros de interesse polarizados um na Álgebra Moderna (em torno de António Almeida Costa) e outro na Análise Real (em torno de Ruy Luís Gomes). A este propósito, diz Ruy Luís Gomes:
“Era, porém, necessário avançar para a integração daqueles dois centros de interesse  num projecto de Escola de Matemática e, para um tal objectivo foi decisiva a colaboração e a extraordinária capacidade de formar discípulos do matemático António Aniceto Monteiro”.
Inspirado pelo exemplo que vinha do grupo de Monteiro, a 11 de Outubro de 1941, Ruy Luís Gomes formula ao Prof. Celestino da Costa, Presidente do IAC (Secção de Ciências), o pedido para a criação do Centro de Estudos Matemáticos do Porto (CEMP). A 18 de Fevereiro de 1942 o IAC solicita ao Director (Ruy Luís Gomes) do Centro de Estudos Matemáticos do Porto um plano de trabalhos, podendo, assim considerar-se esta a data da fundação do CEMP. Ruy Luís Gomes, além de ter sido fundador do Centro de Estudos Matemáticos do Porto, foi seu director até 1947, altura em que foi demitido pelo fascismo.
Em 4 de Outubro de 1943, Aureliano de Mira Fernandes, António Monteiro e Ruy Luís Gomes fundam a Junta de Investigação Matemática (JIM), tendo os fundos para a JIM sido angariados numa campanha promovida por António Luís Gomes, irmão de Ruy Luís Gomes. Em Dezembro de 1943, António Aniceto Monteiro vai para o Porto, com a família, onde fica cerca um ano. Diz António Aniceto Monteiro no seu curriculum:
“durante o período de 1938-43 todas as minhas funções docentes e de investigação, foram desempenhadas sem remuneração; ganhei a vida dando lições particulares e trabalhando num Serviço de Inventariação de Bibliografia Científica existente em Portugal, organizado pelo IAC”.
Foi no Porto que António Monteiro teve a sua única retribuição em Portugal, através da JIM, uma organização privada, como investigador em matemática antes de 25 de Abril de 1974! Nunca chegou a ser professor de uma universidade portuguesa!
Uma das iniciativas da JIM foi a organização nos anos de 1944 e 1945 de palestras científicas lidas ao microfone da Rádio Club Lusitânia, corajosamente cedido pelo proprietário, tendo sido oradores: Ruy Luís Gomes, António Monteiro, Corino de Andrade, Branquinho de Oliveira, Fernando Pinto Loureiro, José Antunues Serra, António Júdice, Armando de Castro, Carlos Teixeira, Flávio Martins. Nada disto agradou ao regime. Uma das consequências foi o encerramento, a seguir à sua palestra, de todos os clubes de matemática que Monteiro tinha fundado em Lisboa, e essa foi apenas uma pequena parte da perseguição política que o fascismo vinha intensificando contra ele.
Desta forma, em 1945, António Aniceto Monteiro viu-se obrigado a sair de Portugal, porque lhe foi vedada a entrada na carreira académica, por razões políticas. Com recomendação de Albert Einstein, J. von Neumann e Guido Beck obtém uma cátedra de Análise Superior no Rio de Janeiro e, em 28 de Fevereiro, embarca para a capital do Brasil. Chega àquela cidade com um contrato por quatro anos, ao fim dos quais, em virtude das suas firmes e desassombradas posições políticas, o contrato não foi renovado por influência da Embaixada de Portugal!
Em Julho de 1946, realiza-se o doutoramento de Alfredo Pereira Gomes – o primeiro do CEMP – na Universidade do Porto, depois de ter sido orientado por António Aniceto Monteiro, estando este já ausente. Em Outubro desse ano, Alfredo Pereira Gomes é afastado da Universidade, por decisão do Governo, alegadamente por “estar incurso no disposto do decreto-lei nº 25317”, pretexto usado contra ele e, em geral, contra todos os outros expulsos antes e depois dele. Pouco depois vai para Paris onde ingressa no CNRS, sob o patrocínio de M. Fréchet e A. Denjoy, ficando em França até ao fim de 1952.
Em 1950, vindo do Brasil, perseguido pelas autoridades portuguesas, chega à Argentina, António Aniceto Monteiro, contratado pela Universidad Nacional del Cuyo (sediada na cidade de San Juan, província de Mendoza).
Em 6 de Janeiro de 1956, é criada a Universidad Nacional del Sur, Bahía Blanca, Argentina, e António Aniceto Monteiro é convidado a nela se incorporar. A Biblioteca do Instituto de Matemática leva actualmente o seu nome, Biblioteca António Monteiro.
Depois de ter sido expulso em 1947, de ter sido candidato à Presidência da República, depois de ter sido preso várias vezes, uma das quais durante dois anos, Ruy Luís Gomes aceitou, em 1958, um convite para ir trabalhar para a Universidade de Bahía Blanca onde reencontra o seu grande amigo António Monteiro.
Ambos continuaram a sua actividade científica no estrangeiro só regressando a Portugal (Monteiro permaneceu apenas dois anos) após o 25 de Abril.
Esta é a breve e parcialíssima história destes dois textos – vivamente actuais – que agora são publicados, homenageando a memória do autor no seu centenário, e dos dois homens impulsionadores do Movimento Matemático e do Centro de Estudos Matemáticos do Porto, antecessor do CMUP.
O povo português muito lhes deve e nunca os esquecerá!

[EFS] E. Fernández Stacco: António A. Monteiro (31/05/1907-29/10/80), Noticiero de la Unión Matemática Argentina (número extraordinário ISSN: 1514-9595)
[FBG] Fernando Bragança Gil: O que foi o Núcleo de Matemática, Física e Química?, http://www.instituto-camoes.pt/cvc/ciencia/e49.html
[JM] José Morgado: O Prof. Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português. Separata dos “Anais da Faculdade de Ciências do Porto”, Vol. LXVII – Fascs. 1º a 4º.
[LNR] Luís Neves Real: Nota acerca do Professor Ruy Luís Gomes como professor universitário e cientista. Em “Ruy Luís Gomes – um professor português no Recife”, Universidade Federal de Pernambuco, Recife (1970), ou em “Ruy Luís Gomes – problemas de investigação e história”, Editorial Inova, Porto (1969).
[RLG] Ruy Luís Gomes: Tentativas feitas nos anos 40 para criar no Porto uma Escola de Matemática, Boletim da SPM nº6, de Outubro.

Sunday, June 26, 2016

Falecimento e funeral de Bento de Jesus Caraça

 «Diário de Lisboa» de 26 de Junho de 1948
«Diário de Lisboa» de 27 de Junho de 1948

Saturday, June 18, 2016

BENTO DE JESUS CARAÇA, por António Aniceto Monteiro

Revista FUNDAMENTOS de Agosto de 1948

BENTO CARAÇA E O ENSINO DA MATEMÁTICA EM PORTUGAL, por José Sebastião e Silva

Diário de Lisboa de 25 de Junho de 1968

Monday, February 24, 2014

«Nota oficiosa» sobre as expulsões de 14-18 de Junho de 1947

O documento aqui reproduzido consta do Arquivo da PIDE/DGS, relativo a Manuel Valadares, existente na Torre do Tombo (IAN/TT). 
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(...)
As razões das expulsões de 1947, estão já bem identificadas nas duas citações anteriores. Mas pode-se ir ao pormenor.
O governo deliberou que todos os militares (11) e 13 professores (os primeiros da lista em anexo) estavam «abrangidos no artigo 1º do decreto-lei nº 25317»: «Os funcionários ou empregados, civis ou militares que tenham revelado ou revelem espírito de oposição…». Aos restantes 8 professores não foi aplicada essa disposição legal, provavelmente, porque o seu vínculo laboral era diferente. Se não era claro antes, fica mais claro agora: os expulsos eram da oposição política ao governo.
Mas, na «Nota oficiosa» que então publicou, o assunto fica ainda mais claro. Quanto aos militares, diz o governo: 
«Certo da sua razão e seguro da sua força, o Governo quase deixou desenvolverem-se livremente acontecimentos e actividades que nos últimos tempos conduziram à preparação simultânea de mais de um movimento subversivo. (…)
Não fez alargar as investigações relativas ao acto sedicioso liquidado na Mealhada em Outubro de 1946, nem à intentona que em 10 de Abril findo procurou inutilmente promover actos de rebelião na zona Tomar-Tancos-Entroncamento.» 
Confirmei que 10 dos militares expulsos estiveram envolvidos no 10 de Abril de 1947. Os militares da tentativa de golpe de 10 de Outubro de 1946, já tinham sido julgados e estavam presos.
Quanto aos professores o governo sente-se na obrigação de dar uma explicação mais pormenorizada: 
«Paralelamente a estas tentativas revolucionárias, diversos processos de desordem se esboçaram em Lisboa e noutros pontos do País. Fez-se a greve nos estaleiros e nalgumas outras zonas industriais da capital e fomentou-se a agitação dos meios académicos, especialmente universitários, com reuniões de protesto contra medidas policiais, além de legítimas, estranhas à vida escolar. Ostensivamente ou por detrás desta agitação, estava uma incipiente organização juvenil em que se depositaram esperanças exageradas, visto não ter sido possível aos dirigentes manter ocultas por muito tempo a inspiração e tendências do movimento.
Tratava-se de perturbações de carácter nitidamente político e não académico. E tanto que só foi impossível pôr-lhes termo por meio de acção exclusivamente académica, onde as autoridades escolares e o próprio ambiente da escola lhes eram propícios. É sabido que houve professores e assistentes que ostensiva ou veladamente animaram a agitação e os agitadores. Mostraram interessar-lhes mais o apostolado ideológico do que o exercício do seu múnus docente.» 
Aqui, o governo faz referência à greve, que durou 21 dias, de milhares de operários dos estaleiros navais e de outras indústrias, que terminou vitoriosa mas também com centenas de prisões. É curiosa esta associação que é feita entre operários, MUD Juvenil e professores universitários. Se quisermos reunir em poucas palavras as razões pelas quais os professores foram expulsos, talvez bastem quatro: Movimento de Unidade Democrática.
(...)
Excerto de
Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo (Revista Vértice 166)